terça-feira, 8 de março de 2016

Hoje Não quero flores!


Por: Jordana Louise do Nascimento

Durante toda a história da humanidade a mulher esteve subjugada a uma sociedade cuja cultura do patriarcalismo/machismo é cultuada. O homem sempre esteve no centro da sociedade e, como consequência dessa imposição, a mulher passa a ser vista como um objeto ou algo a ser dominado, humilhado fisicamente e psicologicamente. É ensinado a elas a maneira de como devem se comportar diante da sociedade, diante da imagem do homem, e quando resolvem quebrar as correntes são duramente castigadas. Várias mulheres foram oprimidas e massacradas no decorrer da história, como por exemplo, a santa inquisição medieval onde foram queimadas, torturadas fisicamente e psicologicamente sob a acusação de bruxaria por tentarem escapar de uma “ditadura social” ou por pensarem e agirem de forma diferente. Infelizmente essa repressão às mulheres não permaneceu apenas na idade média.
Vamos relembrar o ocorrido do dia oito de março de 1857, em uma fabrica de tecidos, localizada nos estados unidos, cerca de 136 mulheres com os seus filhos, pois eram obrigadas a leva-los para as fábricas por não terem onde os deixar, foram queimadas vivas por lutarem pelos seus direitos. Essas mulheres almejavam redução na carga horária que era de 16 horas por dia, melhoria salarial, pois elas recebiam apenas um terço do salário que os homens recebiam, e uma melhor estrutura no trabalho.
Por que o dia oito de março não deve ser tratado como um dia em que as mulheres devem receber flores? Não quero flores, porque não as quero? Flores são um símbolo de romance, sentimentos bons de paz e descanso, as flores não deviriam ser entregues às mulheres no dia 8 de março, pois essa data vai muito além de comemorações. Esse marco não deve/deveria ser apagado de nossas lembranças, não deve ser capitalizada ou romantizada, pois tem que permanecer nas lembranças de todas as mulheres e homens como um dia de luta. Dia em que mulheres foram mais uma vez queimadas vivas por questionarem uma cultura imposta a elas, por quererem romper com uma “ditadura social” que as limitam, falando como devem agir diante dos homens.
Segundo Sylviane Agacinski (1990), a mulher é vista como inimiga pelos homens, pois o homem exerce a força e a mulher a politica do pensamento, o que ocasiona uma ameaça para o sexo masculino. O homem cria conceitos e impõem culturas sobre as mulheres e as força a aceitarem sem a opção do questionamento. Segundo Judith Butler (2015) a construção política do sujeito procede vinculada a certos objetivos de legitimação e de exclusão, e essas operações políticas são efetivamente ocultas e naturalizadas por uma análise política que toma as estruturas jurídicas como seu fundamento. É como se a mulher não pudesse passar a viver em função de si mesma, pois para os homens a raça masculina fica ameaçada e por consequência iria ocorrer o seu declínio.
Para Chimamanda Ngozi Adichie (2014) O fato de imposição sob a mulher vem de uma cultura que está enraizada no contexto social, onde o homem é ensinado a dominar e a mulher a se submeter, e assim ocasionando a exclusão do sexo feminino politicamente e como agente social. É como se o sujeito do sexo feminino tivesse a obrigação de estar ligado como um só ao sujeito masculino, com as limitações impostas por uma cultura machista. O ato de castigar as mulheres que buscam uma nova estrutura cultural e social permanecem marcadas na história, assim como o dia oito de março de 1857. Contudo essa data só passou a ser considerada como um marco na luta da mulher, quando a ONU (Organização das Nações Unidas) oficializo-a  um século depois do seu ocorrido.
O dia internacional das mulheres não é um dia de festividades, pois não temos o que comemorar, não devemos receber flores em um dia que houve um assassinato coletivo de várias mulheres, onde homens misóginos trancaram as portas da fábrica para deixa-las morrer carbonizadas. Não existe dia da mulher enquanto elas forem torturadas, estupradas, mortas, perseguidas e andarem apavoradas nas ruas. Cerca de 15 mulheres são assassinadas pelo feminicídio por dia  no Brasil, a ONU estima que no mínimo, 5 mil mulheres são mortas por crimes de honra (um termo machista criado por homens com o único objetivo de justificar os assassinatos cometidos contra as mulheres) no mundo por ano, apenas por honra o homem acredita que a mulher é obrigada a estar com ele até a sua morte, lembrando que esse tipo de “homem” bate em sua parceira quase todos os dias, violenta sexualmente e reduz a figura do sujeito feminino a nada, e por consequência abalando o seu estado psicológico. Mulheres são alvos de abusos diariamente, sendo esses físicos e verbais.
No Brasil as mulheres estão vivendo tempos escuros, onde os seus direitos, que são poucos, estão correndo o risco de serem retirados. Transita no senado projetos que almejam diminuir a imagem da mulher, que as obrigam a passar por situações indesejadas. Como exemplo temos o projeto de lei PL 5069/2013 que dificulta a realização do aborto legal. Este projeto vai, por consequência, obrigar as mulheres que sofreram violência sexual a não abortarem, pois limitará os procedimentos que hoje são realizados com a finalidade de resguarda e proteger as mulheres e crianças que foram vitimas, um deles é a retirada da pílula do dia seguinte que é cedida pelos órgãos públicos. Hoje esse projeto permanece adormecido, mas o pavor que ronda as mulheres está acordado, com o medo de que esse projeto volte a transitar.
Não podemos receber flores enquanto vivermos em uma sociedade que tem como cultura o exaltar do homem e o menosprezo às mulheres, onde mulheres são vendidas como objetos, têm seus órgãos genitais mutilados, só para que ela não tenha acesso ao prazer, e que mulheres sejam queimadas vivas como retaliação. Não quero flores enquanto Maria, Ana, Eduarda, Cristina, Jordana e entre outras mulheres, não puderem voltar para casa em segurança ou viverem em suas casas em segurança, sem a ameaça de um homem. Quando a cultura da misoginia acabar, aí sim poderemos receber flores e comemorar.

Referências;
BUTLER, Judith. Problemas de gênero; feminismo e subversão da identidade/ Judith Butler; tradução, Renato Aguiar.- 9° ed.- Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
AGACINSKI, Sylviane. Política dos sexos/ Sylviane Agacinski; tradução de Marcia Neves Texeira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todas feministas/ Chimamanda Ngozi Adichie; tradução, Cristina Baum. São Paulo: Companhia das letras, 2015.

SOARES, Ana Lins. Violência contra mulher. Disponível em http://noticias.terra.com.br/mundo/violencia-contra-mulher/. Acessado em 05 de março de 2016.

Um comentário:

  1. Vamos a observações: nem sempre a mulher esteve sob o jugo da sociedade patriarcalista, esta é uma "generalização" criada pelos movimentos mais desinformados. A subjugação da mulher acontece nas sociedades onde aparecem a propriedade privada, elemento fundamental ao escravismo e ao próprio capitalismo. E nem todas as sociedades se organizaram de forma patriarcal. Muitos grupos sociais na África estão aí para provar isso, além da pólis grega da região da Laconia, chamada Esparta, onde a mulher possuía um importante papel na sociedade, se não ombro a ombro, mas ao lado do homem na condução da cidade.

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