sexta-feira, 4 de maio de 2018

A ressurreição de nossos sonhos


Ir. Marcelo Barros

Nunca imaginei vir a Curitiba para uma manifestação nacional e unitária de todas as forças de esquerda e dos principais movimentos sociais e seus aliados. Foi isso que vi nesse 1o de maio, na praça que o povo apelidou da Democracia no centro de Curitiba, entre a Faculdade Federal do Paraná e o Teatro Guaíra. Ali às duas da tarde, começavam a chegar em caminhada os companheiros e companheiras que vieram a pé dos acampamentos Lula Livre, Marisa Letícia e Olga Benario. E no grande palco armado ao lado do edifício da Universidade, se alternavam artistas, políticos e líderes sindicais. Em seu momento mais alto, os organizadores calcularam em 40 mil participantes. Pessoalmente, vi algo comparado às marchas dos bons tempos dos fóruns sociais mundiais em Porto Alegre.
Claro que alguém pode dizer que, como sempre, nessas ocasiões, os discursos se repetiam exaustivamente e também que muitos companheiros de esquerda continuam pensando que, através de gritos, conseguirão ganhar a revolução. E nesse primeiro de maio, vários pareciam querer competir para ver quem gritava mais. O que, me parece, deixa o povo cansado e com sensação de distância emocional. No entanto, apesar disso, devo confessar que tudo isso era menos importante diante da vitória e da alegria de vermos ali reunidas todas as centrais sindicais, de sentirmos junto conosco três candidatos à presidência da República: Guilherme Boulos, Manuela e Aldo Rebelo. Esse último mal conseguiu falar devido à inaceitação e até vaias de uma grande parte da multidão. Apesar disso, ao menos os dois primeiros pareciam dispostos a se darem as mãos e colocar o interesse coletivo acima do pessoal. E o mais importante de tudo era aquela multidão com o coração vibrando de amor como força revolucionária. A mensagem do presidente Lula que  Gleice Hoffman leu no final nos confirmava: Ninguém matará nossos sonhos. E comigo eu pensava e dizia aos que estavam perto: E se morrerem, nós os ressuscitaremos.
Agradeço profundamente aos companheiros Carlos Veras, presidente da CUT em Pernambuco e Jaime Amorim, coordenador do MST do estado que me convidaram para integrar a delegação pernambucana, pagaram minha passagem e me hospedaram em Curitiba. Aliás, aquela manifestação toda foi muito caracterizada pelo agradecimento de uns para com os outros e pelo sinal maravilhoso de ver o povo novamente na rua.
Depois dessa celebração política, verdadeiramente eucarística (de agradecimento e de comunhão), como Jesus desejaria fossem as nossas missas, experiência mais forte só podia ser mesmo o Bom Dia, Lula,  que nós vivemos hoje (02 de maio) pelas nove da manhã em frente ao acampamento Lula Livre. As vozes daquelas milhares de pessoas (não sei quantas, mas imagino mais de três mil), as palavras de ordem e a energia de amor que sentíamos ali, ao ouvir dois índios Kaingang, mulheres da Amazônia, pescadores do litoral da Bahia, alguns/algumas representantes de movimentos sindicais e movimentos sociais – era bom sentir a unidade. Eu pude falar três minutos. Lembrei hoje o aniversário da páscoa do querido Dom Tomás Balduíno (quatro anos), como eu me sentia ali representando ele e todos os profetas e profetizas das Igrejas que nascem do povo que luta por justiça e por libertação. E como não lembrar o maio da falsa libertação dos escravos e  a necessidade de lutarmos juntos contra a morte dos jovens negros em nossas periferias e contra os ataques e discriminações sofridas pelas comunidades de terreiro. Isso também tem de ser agora o nosso grito de Lula Livre. Saí vendo gente chorando no meio da multidão e todo mundo naturalmente de mãos dadas em uma espiritualidade de amor pela luta revolucionária que é começo de ressurreição e Páscoa. 
Quando lembramos nossos sonhos bons (os maus não precisam ser recordados), geralmente precisamos de um cenário que nos seja familiar e agradável. O mais revolucionário desse momento tem sido engravidar um sonho maravilhoso em um contexto adverso, justamente pensado e produzido para assassinar sonhos teimosos e arredios. É viver acampamentos como os hebreus no deserto diante da sede da Polícia Federal de Curitiba e fazer um primeiro de maio unificado e nacional na praça principal da capital dos coxinhas que nós tomamos, ocupamos e transformamos em capital da resistência revolucionária do povo trabalhador e sem trabalho.
Desculpem-me os amigos curitibanos que estão conosco nessa luta. Provavelmente, vocês concordam comigo que nenhum juiz da inquisição golpista que domina o Brasil poderia jamais imaginar que prender o presidente Lula em Curitiba uniria todas as forças de esquerda brasileira e despertaria os movimentos de base em todo o país em torno de bandeiras comuns que atualmente são simbolizadas no grito LULA LIVRE.     O que Moro fez foi transformar Lula no preso político mais importante do mundo. Essa prisão injusta dará a Lula a possibilidade de ganhar o Prêmio Nobel da Paz. E, pelo que estamos vendo, essa prisão iníqua será o detonador de um processo revolucionário que tendo sido aceso, nada mais conseguirá deter. O LULA LIVRE vai muito além do protesto contra a prisão do presidente. Simboliza a luta contra as medidas escravagistas do desgoverno atual e revela a resistência de milhões de pessoas que se sentem continuando a luta de Mariele e de tantos irmãos e irmãs que partiram. O único lembrete que me cabe fazer, se me derem espaço e tempo, é o que fiz hoje, é recordar que essa revolução precisa engravidar no coração de cada um de nós um jeito novo de ser e de viver que os evangelhos chamam de processo de conversão. Esse processo é social, mas deve também ser pessoal. Ele nos faz ver nos olhos uns dos outros a faísca amorosa do Espírito que nos confirma: Deus é mesmo Amor. Um Amor que é sentimento e impulso criador e transformador de mais amor. Nós traduzimos e vivemos isso quando conseguimos transformar a luta em um ágape revolucionário, cheio de amor e carinho. Foi isso que me pareceu que vivemos ontem e hoje em Curitiba e que se espalha pelo Brasil. Se Deus quiser. Amém. Aleluia.

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