O açude velho sofre de um processo de eutrofização acelerado há anos, que é difícil definir quando iniciou o processo hipertrófico. Porém, posso falar que na dissertação da Dra. Amanda Torquarto (2017), ela em seus estudos identificou um estado hipertrófico, lembro que um dos questionamentos de Amanda naquela época, era como pode uma concentração tão alta de oxigênio dissolvido no reservatório eutrofizado? A resposta era simplesmente o excesso de atividade algal, as algas e qualquer organismo fotossintetizante libera oxigênio durante seu processo de fotossíntese e é assim que o processo de tratamento de esgoto doméstico clássico conhecido como lagoa de estabilização funciona, é um ciclo perfeito entre os organismos presentes na lagoa de estabilização, as algas liberam o oxigênio para as bactérias decompositoras da carga orgânica presente no esgoto e essas por sua vez liberarem o CO2 durante seu processo de “desenvolvimento” assim, se mantém o equilíbrio, logo o açude velho não é uma lagoa de estabilização pois durante o monitoramento que eu e minha equipe realizamos no período de 2021 até final de 2022 nunca percebemos redução de carga orgânica, logo não existia um processo de decomposição de matéria orgânica considerado. Mas, sabíamos que tínhamos uma elevada floração de cianobactérias, que são bactérias fotossintetizantes logo realizam fotossíntese e libera oxigênio dissolvido.
Mas, então, como explicar esse fenômeno da elevada mortalidade dos peixes, será que no período da noite quando não existe oxigênio oriundo da fotossíntese não era suficiente? De fato, isso pode acontecer e sempre aconteceu, quem nunca sentiu um odor desagradável em alguns pontos do açude velho? Quem nunca visualizou peixes mortos no açude velho? Mas, o questionamento que precisamos fazer é, será que em 48 horas devido a um processo acelerado de eutrofização é o suficiente para causar a mortalidade de todos os peixes do açude velho? Pode ser possível, mas no mínimo estranho porque é clássico em qualquer reservatório eutrofizado apresentar algas (organismos fotossintetizantes) nesse caso percebemos a cor esverdeada devido ao pigmento da clorofila presente nas algas, como percebíamos nos últimos anos no açude velho. Então, cadê a coloração esverdeada? Cadê o oxigênio dissolvido das algas? Mesmo que sejam algas marrons, que acho improvável porque esse tipo de algas ocorre mais em águas salinas.
Assim, é difícil acreditar que apenas o processo acelerado de eutrofização seja o responsável pela mortalidade de toneladas de peixes em 48 horas. De fato, é um fenômeno e que simplesmente NINGUEM pode apontar a causa sem um estudo minucioso da qualidade química e hidrobiologica da água do açude velho, porque está tudo muito estranho que foge o padrão de lagos eutrofizados. Desta forma é preciso que os especialistas façam a devida investigação ! Repito especialistas! Por que parece que estamos ja no período da copa do mundo onde todo brasileiro virá técnico de futebol e em Campina Grande todos viraram especialistas em eutrofização! Sem mesmo saber se de fato essa é a causa da mortandade dos peixes! Antes de apontar a causa, é preciso responder diversos questionamentos, tais como:
Será que existe algum agente químico nas águas do açude velho capaz de eliminar a vida aquática do reservatório em um curto espaço de tempo? Para isso é preciso fazer uma análise química profunda por meio até de cromatografia, espectrofotometria e absorção atômica e análise de ecotoxidade.
Será que a falta de oxigênio foi a causa da mortandade dos peixes e algas? Para responder esse questionamento é preciso definir a causa da morte do peixe, se foi um processo de anoxia no açude ou se a causa foi por toxidade, para isso tem que fazer uma análise no peixe morto.
Será que as cianobactérias sofreram lise celular e liberam as cianotoxinas provocando toxidade nos peixes?
Outra coisa que me chamou atenção, por que os peixes mortos tinham em sua maioria aparentemente o mesmo tamanho? Será que quiseram transformar o açude velho em um tanque de criação de peixes e foram adicionados alevinos para coletar em momentos de alto consumo de peixes e essa população de peixes cresceu absurdamente a ponto da demanda de oxigênio não ser suficiente e desta forma provocar a morte dos peixes menos resistentes.
Logo, existem várias hipóteses, e é preciso que se faça uma investigação detalhada que possa responder a esses questionamentos que faço e outros que possam ter para explicar o tragedia ambiental que estamos assistindo em nosso açude velho.
Da mesma forma, é a reposta para o que se deve ser feito agora? Não existe uma única solução, é preciso estudos com equipe multidisciplinar (biólogos, engenheiros, químicos, ecólogos .....) para juntos definir as ações mais rápidas que apresentam segurança ambiental e com menor custo possível.
Eu ainda não tinha me pronunciado porque não gosto de apontar soluções ou culpados sem antes entender o ocorrido, ainda de fato, tenho muitas dúvidas que tem como serem esclarecidas com estudos mais profundo.
Porém, não se deve definir que a culpa é exclusiva da CAGEPA devido ao lançamento de esgoto doméstico, gente quem mais quer identificar ligação clandestina é a CAGEPA porque ela pode cobrar a ligação de esgoto aumentando a receita da empresa. Ressaltando que, as ligações de esgoto clandestinas são na maioria pertencentes a rede pluvial, uma vez que as águas que chegam no açude velho são oriundas da rede pluvial.
Então, deixamos que as autoridades encontrem a causa e definam os culpados.
Mas, o que nós como sociedade podemos tirar como lição é que precisamos ter um respeito maior com a natureza, é preciso que a sociedade aprendam a cobrar as autoridades das varias esferas municipal, estadual, federal e judiciaria, saneamento ambiental com maior controle e fiscalização de todas as matrizes ambientais, sejam ar, agua e solo porque qualquer perturbação eutrópica nessas matrizes provoca consequências irreversíveis para nós que dissemos ser seres “racionais”, sejam de ordem econômica, social, econômica e política.
Quando teremos de volta nosso açude velho? Acredito que levara anos, mas com a definição concreta das causas é que se pode dar inicio a total recuperação do açude velho.
Resolvi escrever sobre o acontecimento em resposta e respeito a muitos que me questionaram o que ocorreu com nosso Açude Velho.
*Por Weruska Brasileiro. Engenheira Química pela UFPB, professora e pesquisadorac a UEPB, Campus I. Texto e imagem das redes sócias da autora.
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