O Brasil acordou mais uma vez com o cheiro de pólvora e leite derramado. Não é metáfora. É o leite do café da manhã que não aconteceu, é o pó da mochila que não será mais usada. Em Itumbiara, no silêncio ensurdecedor da noite de quarta-feira (11), um menino de oito anos, Miguel, teve a vida interrompida dentro daquilo que deveria ser abrigo.
O nome do homem era Thales Naves Alves Machado, 40 anos. Genro do prefeito, secretário da prefeitura, casado havia 15 anos com a mãe das crianças. Um homem socialmente inserido, aparentemente ajustado, reconhecido na cidade. Ele matou Miguel, feriu o filho caçula e, em seguida, tirou a própria vida.
A tragédia não escolhe endereço pela renda, pelo cargo ou pelo sobrenome. Ela se instala onde há uma alma que não aprendeu a perder.
E eu fico aqui, pensando: o que é essa coisa estranha que chamamos de família? Essa instituição que juramos sagrada, esse porto que deveria ser seguro, mas que às vezes se revela um campo minado onde o maior perigo mora dentro de casa.
Não é sobre partido. Não é sobre ideologia. É sobre uma patologia antiga: o homem que confunde amor com posse. O homem que, diante da separação real ou iminente não enxerga um fim de ciclo, mas a implosão do próprio ego. Ele não vê uma mulher querendo seguir a vida; ele vê um território se deslocando. Ele vê o controle escapando pelos dedos.
E quando o controle vai embora, ele acredita que tudo deve ir junto.
Os filhos, nessa lógica doentia, deixam de ser seres humanos e passam a ser símbolos. Extensões de um domínio. Provas de poder. E se a mulher ousa reconstruir-se, ousa ser feliz, ousa respirar fora da fortaleza, ele decide incendiar o castelo inteiro.
Vejam a perversidade do pensamento: “Se não posso ter, ninguém terá.”
Mas o que ele realmente diz é: “Se não posso controlar, destruirei.”
Ele não suporta a ideia da continuidade da vida sem ele no centro. Não suporta imaginar que os risos que ele julgava pertencerem ao seu reinado ecoem em outra paisagem. Então executa o ato extremo o gesto que acredita ser poder, mas é apenas covardia desesperada.
E antes do fim, quase sempre há uma narrativa. Uma tentativa de inverter os papéis. De vestir a máscara de vítima. Como se a liberdade da mulher fosse agressão. Como se o direito de ir embora justificasse o massacre.
Mas não há justificativa.
Há apenas o vazio.
E nós, sociedade, choramos, compartilhamos, nos indignamos. Colocamos vigília, policiamento, notas oficiais. Mas evitamos olhar para a raiz: essa educação emocional inexistente, essa masculinidade que ensina a conquistar, mas não ensina a perder; que ensina a possuir, mas não ensina a respeitar a autonomia do outro.
É difícil ser mulher. É difícil ser mãe. É difícil dormir ao lado de alguém e não saber se aquele amor é abrigo ou cela.
Miguel se foi. O filho caçula carrega no corpo e na memória a marca de uma noite que jamais será esquecida. E uma cidade inteira aprende, da maneira mais brutal, que status não é sinônimo de saúde emocional.
Fica o silêncio. Fica o eco. Fica a pergunta que não quer calar:
Até quando confundiremos fortaleza com prisão?
*O filho caçula, partiu hoje, não resistiu.
**Alessandra Almeida Del'Agnese
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