Por Alessandra Del'Agnese*
Os Estados Unidos atacam a Venezuela como quem quebra um espelho para não se ver feio. Na madrugada deste sábado (03/01/26), o espelho estilhaçou-se sobre Caracas, com explosões que iluminaram a base militar de La Carlota e o complexo de Fuerte Tiuna, ecoando nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira.
O governo venezuelano denuncia uma "agressão militar muito grave"; fontes americanas, anônimas, confirmam a ordem de ataque do presidente Trump. Não é guerra é correção moral armada. Não é política externa é terapia de poder administrada com drones e mísseis, precedida por meses de uma escalada calculada que já se anunciava como um roteiro conhecido.
O império não suporta países que insistem em existir fora do seu roteiro. A Venezuela é esse erro de roteiro: imperfeita, caótica, contraditória, mas ousada o suficiente para não pedir licença. E isso, no mundo “livre”, é imperdoável. Por isso, o discurso vem sempre embalado em celofane ético: “democracia”, “combate ao narcotráfico”, “direitos humanos”.
Palavras lindas, limpas, esterilizadas. O problema é que elas chegam precedidas por uma mobilização de 15 mil militares, 13 embarcações e o porta-aviões USS Gerald R. Ford o maior do mundo estacionado a poucas milhas da costa. Chegam após uma sucessão de mais de 30 ataques a embarcações no Caribe e Pacífico, que mataram dezenas sob a acusação de tráfico de drogas.
Chegam com o bloqueio "total e completo" de petroleiros, o estrangulamento da principal fonte de renda nacional. Palavras proferidas por homens que jamais sentiram falta de comida, mas decidem quem pode ou não comer, e agora, quem pode ou não viver sob o fogo cruzado.
A cronologia do poder: do decreto à detonação
Para entender a farsa, é preciso encarar o calendário da hipocrisia. Esta não é uma ação espontânea, mas um processo metódico de construção do inimigo:
Fevereiro-Março 2025: O governo Trump designa organizações criminosas, como o Tren de Aragua, como grupos terroristas. Usando uma lei de 1798, deporta centenas de venezuelanos para prisões em terceiros países.
Agosto: A recompensa por informações que levem à captura do presidente Nicolás Maduro sobe para US$ 50 milhões. Navios de guerra e um submarino nuclear são enviados ao Caribe.
Setembro a Novembro: Começa a campanha de ataques a “narcolanchas”. São pelo menos 20 ações letais, justificadas por um memorando interno que declara um "conflito armado não internacional" contra cartéis de drogas.
24 de Outubro: No décimo ataque, a embarcação alvejada é justamente vinculada ao Tren de Aragua o mesmo grupo designado como terrorista em fevereiro, completando o círculo retórico.
28 de Novembro: Revela-se que Trump e Maduro teriam conversado por telefone. Dias depois, Maduro, em entrevista, se dizia aberto a "conversas sérias" e oferecia petróleo às empresas americanas.
3 de Janeiro de 2026: As bombas caem sobre Caracas e Nicolas Maduro e sequestrado, em um rastro de destruição e cerca de 80 mortos, ebtee civis e militares.
Os Estados Unidos não atacam apenas Maduro. Atacam a ideia perigosa de que um país da América Latina possa errar sozinho. Porque errar sob tutela é aceitável. Errar por conta própria é subversão. E quando o erro próprio inclui alianças com Rússia, China e Cuba, e a posse das maiores reservas de petróleo do mundo, a subversão torna-se um crime passível de intervenção cirúrgica.
O rosto no espelho: interesse, petróleo e um império cansado
Há algo de profundamente obsceno em um país que exporta guerras como se fossem valores universais. O império fala em liberdade enquanto sufoca. Fala em democracia enquanto escolhe quem pode votar… e quem pode viver.
Fala em lei enquanto ignora o próprio Congresso: o senador democrata Ruben Gallego, veterano do Iraque, declarou que "esta guerra é ilegal". Enquanto isso, o porta-voz da oposição venezuelana endossava a estratégia de Trump, e o líder do governo salvadorenho, Nayib Bukele, atuava como intermediário em trocas de prisioneiros.
A Venezuela virou bode expiatório de um sistema que não tolera desvios. Não se trata de defender governos trata-se de defender povos. E povo nenhum melhora sob bombas econômicas ou mísseis.
Nenhuma criança aprende democracia passando fome ou correndo para abrigos às 2h da madrugada. O ataque, contudo, revela menos sobre Caracas e mais sobre Washington. Revela um império cansado, que já não seduz apenas intimida. Um poder que, desde os tempos de Hugo Chávez sendo chamado de "o Diabo" na ONU e de George W. Bush sendo chamado de "pendejo", perdeu o argumento e ficou só com o braço.
E nós, aqui embaixo, seguimos assistindo ao espetáculo como figurantes históricos. Com medo de dizer o óbvio: não existe guerra humanitária. Existe interesse. Petróleo. Geopolítica. Controle.
O resto é marketing, um espetáculo narrado em posts no Truth Social onde se anuncia a captura de um presidente, enquanto o mundo real testemunha um país em "estado de comoção externa", com seu povo convocado a ir às ruas para defender a soberania.
Talvez o maior crime da Venezuela seja esse: lembrar ao mundo que o império não é Deus. E que todo império, quando começa a bater demais, já está com medo de cair. Cai quando sua narrativa não mais convence, quando seus próprios filhos questionam sua legalidade, quando a força bruta é a única língua que lhe resta.
E impérios não caem apenas com bombas. Caem com espelhos. Quando finalmente são obrigados a se olhar no reflexo distorcido de sua própria violência e enxergar, nas fissuras, não um monstro alheio, mas a própria face cansada da hipocrisia.
*Por Alessandra Del'Agnese @destacar
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