Quase todos sabem que sou flamenguista e simpático do Campinense Clube, em decorrência das aproximações do padrão de cores. Mas isso não vem ao caso, pois o assunto aqui é o nascimento do Treze Futebol Clube, também conhecido como "o Galo da Borborema ou 13 de Campina Grande".
O livro "Éramos apenas 13 - um grupo de amigos que transformou numa nação!" De autoria do professor Mário Vinicius Carneiro Medeiros. João Pessoa, editora ideia, 2025, 86 p. Com uma capa leve e preto no branco, para combinar com as cores alvinegras do Treze Futebol Clube, já nos deixa no mínimo curiosos, pois existe uma mística na numerologia e cabalística em torno do 13.
Tive o prazer e a felicidade de receber diretamente do autor, professor Mário Vinícius, mais essa brochura linda, com dedicatória e marcador de páginas, delicadamente bem produzido por Magno Nicolau da Editora Ideia.
Em um livro gosto de ler tudo e quero começar a destacar essa capa que parece veludo com impressões de imagens históricas dos fundadores do galo da Borborema e seu centenário escudo de glórias e títulos épicos e ideia de sorte e/ou azar, quando as conquistas acontecem, ou quando, em meio as tormentas, as incertezas e imprevistos do futebol, nos frustramos enquanto fieis torcedores.
A orelha do livro traz uma importante apresentação síntese de Thélio Queiroz Farias. De maneira essencial, já nos desperta para o que vem pela frente, pois a história de um século do clube é um alerta sobre as poucas obras, tratando sobre o futebol brasileiro e paraibano.
O prefácio do livro "Éramos apenas 13", foi escrito pelo talentoso Bráulio Taváres. E aqui não vamos usar a expressão campinense, pois o melhor termo seria "campina grandense". Brincadeiras aparte, Bráulio é de uma sensibilidade literária fenomenal e, nos jogou de imediato, para o mundo dos poderes sobrenaturais e mistérios de um mundo em que o 13 ganha significado e identidade especiais, que só podem ser sentidas por quem é um fiel torcedor.
Ele nos passou a ideia, em que, outros mortais nunca saberão ou provarão dos encantos em ser torcedor do treze. Ou você entra nesse universo maravilhoso como torcedor, ou sua vida sempre ficará faltando alguma coisa. Então, para conhecer essa história, essa mística fantástica, você precisa ler essa obra secular e, para todos os que vestem o "manto alvinegro do 13" e suas insignias cabalísticas, conhecer essa história, fará muito mais sentido em suas vidas.
Bráulio Taváres, como todos sabemos, mergulhou profundamente nessa arte das escrituras sobre o 13 Futebol Clube e suas palavras, despertam o leitor a se apaixonar pelo desconhecido, que está prestes a ser desvelado pelo professor Mário Vinícius e sua obra.
Bráulio começou relembrando de tempos difíceis, de um bom time e bom futebol, mas experiências inglórias, sofrimento e zoações adversárias. Narrativas de algumas décadas perdidas, mesmo assim, existia altivez e humildade para continuar as batalhas e esperanças em dias melhores.
Bráulio alerta a todos os que torcem por algum clube de futebol, para a ideia de que, um dia a gente chora a derrota, mas enquanto isso, aguarda o próximo embate, para na vitória se alegrar, vibrar e crescer as esperanças para o outro dia da semana até o ápice do troféu tão desejado.
Ele traz para o prefácio, os idos de 1975, quando o 13 completou seus 50 anos de existência, memória e história dos 13 primeiros desbravadores que transformaram um sonho em uma nação de galos com essa numerologia para a sorte em torcer pelo 13.
Bráulio Taváres usou a palavra essencial algumas vezes, com isso nos colocou no campo da percepção, fenomenologia e essencialismo e como um artista sensível e emocionado pelo tema que lhe toca profundamente, fez o seu melhor e nos deixou mais instigado a continuar querendo saber o que virá pela frente, pois aqui é apenas o pré-jogo.
Essencial mesmo, pois foi tocado pela história, pela memória e vivências em alegrias e tristezas típicas de qualquer torcedor que ama seu clube, como quem ama seus amigos, seus pais, sua esposa, filhos e netos.
É importante dizer que ser torcedor é algo que implica, em muitos casos, seus próprios amigos, que às vezes torcem pelo clube adversário (Raposeiros, botafoguenses, etc). Mesmo assim, um se alimenta da alegria ou da tristeza do outro, sempre em um amor tóxico das eternas provocações.
1 século não são 100 dias e para que um século se passe em torno de um fenômeno humano, precisamos reconhecer a importância dos pioneiros e, no livro em tela, eram apenas 13 e assim foi criado o Treze Futebol Clube da Paraíba.
Quando temos um prefácio com essa intensidade, só podemos esperar uma obra significativa e confiante. Registro histórico de um século e muito mais, pois dos primeiros 13, grandes nomes vultos se encontram nos anais do primeiro século do Galo da Borborema.
A Título de Introdução, já adorei saber dos três primeiros nomes de fundadores do 13, mas saber que o primeiro gol oficial do galo foi marcado pelo jogador Guiné, em 1926, significa muito, pela simbologia do "Galo e do Guiné", duas aves muito resistentes do sertão nordestino. Sabemos dos limites em termos de comunicações, mas as imagens e o destaque da resenha esportiva da época, são relíquias do passado.
Criado em 7 de setembro de 1925, dia da independência do Brasil, momento comemorativo e que certamente marcou essa escolha histórica. Talvez nem imaginassem que aquele ato chegasse tão longe, fosse despertar a vivência e o coração de tantos alvinegros e sua eterna paixão pelo "Galo da Borborema".
Há um século, Campina Grande, vivia sua expansão de cidade capital da Borborema e do Sertão Paraibano. Um misto de ciclos econômico do colton, pecuária, agave, entroncamento ferroviário e pujante comércio. No Brasil, já existiam centenas de clubes de remo e futebol e Campina Grande, começou a atrair população dos vários municípios da região.
O futebol começava a despertar interesse como espetáculo e forma de lazer dos finais de semanas e dos torneios comemorativos. Os clubes eram lugares festivos, ambientes para encontros, torcidas alegres, gerando uma identidade de pertencimento e amizades.
Professor Mário Vinicius, nos alertou para os dias atuais e a grande plataforma de dados, documentos, imagens e outras formas de pesquisas facilitadas pela internet. Mas para isso, tivemos os pioneiros, geração após geração, produzindo a história de fato. Hoje existe a facilidade, mas, sem esses pioneiros, nada poderia ser como o que foi indiciariamente produzido.
O autor, ao resgatar essa história, nos permitiu imaginar como foi esse passado e até mesmo em aguçar nossa curiosidade sobre outros aspectos do tema. Os organizadores do 13 de Campina Grande, devem se orgulhar em ter um torcedor dessa magnitude, dedicando e em dias e noites de pesquisas, trazer até nossos dias, livros como o anterior: "Treze Futebol Clube: 80 anos de História".
Agora estamos diante dos 13 pioneiros fundadores dessa história que se mantém firme, forte e viva. Não quero resenhar esse livro em uma ordem de capítulos, pois isso poderia afastar novos leitores da obra completa.
Portanto, farei comentários pontuais e o primeiro deles é a riqueza de detalhes sobre os primeiros passos de introdução do futebol como conhecemos, a partir de um mundo ainda com forte isolamento informacional. As cidades em crescimento, os meios de transportes e de comunicação se modernizando e experiências humanas como o futebol, despertando o interesse dos jovens e outras faixas e camadas sociais.
A gente começa a imaginar os primeiros passos da cidade de Campina Grande, os clubes sociais e o interesse de "alguns moleques", por algo que ainda não era do conhecimento de todos. Correr atrás de uma bola, inventar regras e transformar as ruas em campinhos de "peladas".
Bióca, certamente é o grande percussor do futebol em Campina Grande. Esse texto intrincado e muito bem referenciado, nos leva para as ruas de terra de uma Campina Grande em expansão. A gente consegue imaginar o delegado furando a primeira bola e proibindo os jovens de "praticar aquela imoralidade no meio da rua", pois deu a entender que estavam jogando com as suas calças de baixo (ceroulas) e sem camisas.
Não quero dar muitas dicas, mas a história é surpreendente, pois entre o nascimento e desenvolvimento do Treze Futebol Clube e as atividades laborais de Bióca, seu amor pelo futebol levou a também fundar o Departamento de Futebol do Campinense Clube.
Aqui um alerta aos amigos raposeiros da UEPB Rangel Junior, Hipólito e Efigênio Moura. Quem diria que os raposeiros precisariam ler os 13 pioneiros do futebol em Campina Grande, para descobrir suas próprias origens. Será que existe alguma controvérsia, ou terão que aceitar que o "Galo é o pai da Raposa"?
Também quero alertar aos amigos alvinegros da UEPB, Jamerson e Cristiane Nepomuceno, Cláudio Lucena e Luciano Albino, pois essa é a história de vocês também. Fico nessa torcida pois não podem deixar de ler e de indicar para toda a torcida do 13.
Aqui em Guarabira, também tenho amigos como Elias Asfora, que é um apaixonado pelo 13 de Campina e, lendo essas páginas, lembro das nossas conversas sobre o crescimento urbano de Campina Grande, ressaltado no livro sobre os pioneiros do futebol. Assim como o algodão, o gado, os tropeiros e os trilhos de ferro que fizeram florescer a "Rainha da Borborema".
Quando lemos a história dos 13 pioneiros, um a um, o rico acervo fotográfico, as referências bibliográficas cuidadosamente distribuídas, suas origens familiares, esse rebuscado tratado literário e histórico do professor Mário Vinícius, sobre as origens do futebol em Campina Grande e na Paraíba, ficamos muito felizes em saber que não se trata apenas sobre a história do futebol, pois seu detalhamento e linha histórica, veio recheado pelo imaginário e a memória, expondo as origens e expansão da cidade, suas ruas, seu comércio, o esporte e o lazer de tempos pretéritos que agora reunidos neste livro, podem ser revistos dentro de um pretexto, contexto e texto para além do Treze Futebol Clube.
Poderia detalhar cada um dos 13 capítulos, de Bióca a Zacarias Cotó, até o apito final. Mas quero parar por aqui, quero dizer que o livro é inspirador. Mas não é um livro apenas para os apaixonados torcedores do 13. Essa é uma história para o povo de Campina Grande e para a Paraíba.
O livro nos permite conhecer detalhes da história, a partir das décadas de 1925 e nela, percebermos o quanto é fundamental termos uma identidade cultural, territorial e regional, em que, aqueles preconceitos de lugar, como afirma o historiador Durval Muniz em suas obras, e até mesmo, aquelas máximas de torcer por times de fora, por acreditar que na Paraíba não existem times de futebol, podem ser completamente alterados.
O professor Mário Vinicius quebra esses estereótipos e nos diz que a bola rola em campo, nas arquibancadas e nos espíritos pioneiros. Que o 13 é uma das suas grandes paixões e que nos seus, quase 40 anos de casado, fez essa linda declaração de amor para sua amada esposa Jucicleide Carneiro: "(...) Trinta e nove anos se passaram (...), meu cabelo caiu, aumentei o peso, mudei de profissão (...) Só dois sentimentos não mudaram: o de torcer pelo Treze e meu amor por você!"
Parabéns ao Professor Mário Vinícius pelo livro, aos 100 anos do Treze e ao futebol paraibano. Que as novas gerações possam colocar lenha nessa fogueira e o 13, daqui a mais 100 anos, possa contar a sua história de dois séculos.
*Por Belarmino Mariano. Professor de Teoria da Geografia e Geopolítica pela UEPB. Da Série Resenhas. Editora ideia, projeto gráfico: Magno Nicolau. Capa: Fred Ozanan. Boa leitura para tod@s.