![]() |
| Da série DIÁLOGOS ENTRE BRECHAS | SUFOCO | Fotoarte: MAFALDO JR. | João Pessoa-PB | 12•set•2021. |
Por Belarmino Mariano Neto*
Estamos vivendo um século de criação
oficial do primeiro Partido Fascista da história da humana, mesmo que o
movimento com características ou marcas fascistas, tenham registro a partir de
1915, durante a Primeira Guerra Mundial e 1919 pós-guerra (ATTANÁSIO, 2019). Na
atualidade, existem influentes interferências políticas extremistas e ou
totalitárias no cenário internacional, em alguns países estas forças políticas
conservadoras ascendem ao poder e ameaçam os princípios e valores democráticos.
Na atualidade, também predominam práticas políticas de militarismo ditatorial, intolerância e ódio contra grupos minoritários e ideologias ditas comunistas ou socialistas, a grupos étnicos, também populações LGBTQ+ entre outros ao exemplo de fechamento de fronteiras para refugiados, movimentos de xenofobia, nacionalismo, separatismo e fundamentalismos sejam cristãs, sionistas ou islâmicos. Também estão na ordem do dia, atentados e práticas genocidas contra minorias étnicas, fortes ataques de grupos supremacistas brancos, contra populações negras etc.
Para entendermos estes movimentos
políticos precisamos ler primeiramente autores como Pisier
(2004), que nos leva para as origens dos conceitos centrais e ideias primárias
do clássico pensamento político em autores que vão de Platão a Foucault ou de
Aristóteles a Rocoeur, nos chamando para um racionalismo lógico das diferentes
abordagens políticas na contemporaneidade, período histórico em que devemos
situar tanto o fascismo, quanto o nazismo e demais sistemas políticos
totalitários, tendo em Rocoeur as mais profundas análises da experiência humana
de quem experimentou os campos de concentração nazistas durante a Segunda
Guerra Mundial e viveu para se tornar um dos mais brilhantes filósofos políticos,
com reflexões e contribuições para a fenomenologia, hermenêutica, ciências
humanas e sociais.
Não poderemos generalizar como fascistas,
aqueles que estão a frente ou mobilizam populações aos atos antidemocráticos,
mas é possível registrarmos algumas marcas deste antigo regime que nasceu na
Itália no início do século XX e se espalhou por todo mundo, mesmo tendo uma
vida curta que perdurou entre a primeira e segunda guerras mundiais (1914/1918
e 1939/1945), ainda notamos germes dessa ideologia que chegaram até aos nossos
dias, inclusive com posicionamentos assumidos em redes sociais e até mesmo em
ambientes públicos.
Entre 1920 e 1945, chegaram a existir
partidos com ideário nazifascistas em dezenas de países da Europa com destaque
para a Itália, Alemanha, Áustria, Hungria, Albânia, França, Espanha, Portugal,
Inglaterra e até no Brasil e vários outros países das Américas. Pesquisam
apontam que também existiram partidos com programas fascistas na Ásia e na Oceania,
com destaque para o Partido Nacionalista Chinês.
O cronista e escritor brasileiro
Chiavenato (1981) escreveu uma obra intitulada “Geopolítica, Arma do Fascismo”.
Apesar de o autor atrelar o termo fascismo a geopolítica de maneira
generalizada, vale registrar a introdução brasileira de alguns conceitos chaves
tanto para a Geopolítica quanto para o fascismo. Pois o autor consegue trazer
para dentro de sua obra, noções fundamentais ou marcas em que no próprio Brasil,
foram registradas experiências, tanto nazistas quanto fascistas, inclusive com
a criação do Movimento Ação Integralista Brasileira (1932-1937).
Para Chiavenato (1981), no Brasil essa
experiência política fascista, apesar de ter tido curta duração político
partidária organizada, com base no autoritarismo, militarismo, conservadorismo
católico, nacionalismo, sempre se manteve no seio dos grupos dominantes e das
elites agrárias conservadoras do nosso país. O melhor exemplo disso é o slogan
“Deus, Pátria e Família”, que continua no manifesto político de dezenas de
partidos de direita que legalmente, atuam no país e que geralmente controlam
importantes casas legislativas, judiciárias e poderes executivos dos diferentes
estados da federação.
Arendt (2013) em sua obre de 1956, “Origens
do Totalitarismo”, chama a atenção para os fundamentos do imperialismo
capitalista, fascismo, nazismo, stalinismo em meio aos grandes avanços do
capitalismo colonialista e as disputas imperialistas europeias do final do
século XIX até a primeira guerra mundial. Ela identifica primeiramente os
movimentos de origem antissemita, ocorridos na Europa ao final do século XIX e
principalmente, as fortes disputas imperialistas dentro da Europa.
Na visão de Arendt (2013), as bases
do fascismo e do nazismo estão no contexto histórico do antigo Sacro Império
Germânico Romano, que no final do século XIX se encontravam divididos entre Itália e
Alemanha, territórios que ficaram basicamente fora da grande partilha
territorial colonial do mundo, controlados predominantemente pelo Reino Unido,
Espanha, França e Portugal, além de territórios colonizados por Holanda e
Bélgica.
Uma única e objetiva definição ou
conceituação para o fascismo na atualidade, não é algo fácil, pois mesmo
existindo um curto período de práticas ou experiências fascistas no mundo (1915
– 1945), precisamos considerar que as origens desses movimentos e sua expansão
para vários países da Europa e para vários países do mundo devem ser
consideradas. O fascismo político é apenas um aspecto do sistema, pois devemos
considerar aspectos econômicos, sociais e culturais e simbólicos que estão
arraigados no mito de Roma (GIARDINAA, 2008).
Este ensaio procura
analisar como o mito de Roma foi utilizado por Mussolini para criar uma
"especificidade" fascista que coincidisse com uma
"especificidade" da nação italiana. Práticas rituais, gestos,
valores, símbolos foram retomados, de forma variamente arbitrária, para
construir um mito que gerava novas ambiguidades, e que constituiu, à diferença
do nazismo, um empecilho para a própria sobrevivência da "romanidade"
após Mussolini (GIARDINA, 2008, p.1).
Podemos deduzir que o fascismo
italiano, de fato, teve suas origens durante a Primeira Guerra Mundial
(1914-1918), momento em que grandes impérios ruíram em disputas político
territoriais e avanços de novas ideologias sociopolíticas que se fortaleciam
dentro da Europa, ao exemplo dos movimentos operários liderados por anarquistas
e comunistas, que se contrapunham as guerras e ao capitalismo liberal.
Os fascistas viam na primeira guerra
mundial um momento revolucionário de oportunidade para reerguer o império
romano, recuperando territórios ao longo do mediterrâneo e da Europa ocidental
e oriental. Mas para tanto era necessário articular uma forte unidade política
e militar dentro do território italiano. Para tanto, em 1915 Benito Mussolini
funda o Partido Revolucionário Fascista (PRF - Fasces), que se tornaria em 1921
o Partido Nacional Fascista (PNF), que assumiu o governo geral da Itália em
1922, comandado por Mussolini (Chiavenato, 1981).
Todos estes autores identificam que o fascismo assim como o nazismo, defendem um regime totalitário e autoritário, com a centralização do poder militarista. Na sua gênese o fascismo utiliza uma simbologia do antigo império romana, que consiste em um faixe de varas amarradas em torno de um machado, que simboliza a união e a força. O feixe era um dos símbolos do exército romano, sendo utilizado pelo imperador para determinar a punição capital contra os inimigos. Vistos como inimigos do regime fascista, estavam os comunistas, anarquistas e sionistas. Daí essa visão Cristã conservadora enquanto uma das unidades culturais ideológicas, que contou inclusive com a alta cúpula conservadora do Vaticano (ATTANÁSIO, 2019).
As marcas atuais que representam
algumas abordagens ou lembranças do fascismo. A identificação de um inimigo
central, que na atualidade é o que eles chamam de comunistas, seguidas tentativas
de golpes com o uso de um regime militar capaz de unificar o país em torno de
práticas cristãs conservadoras autoritárias, dominação política de legendas
partidárias nanicas, mais que continuam defendendo bandeiras conservadoras e
até certo ponto antidemocráticas entre seus militantes.
No Brasil existem dezenas de pequenos partidos em que grupos de
extrema-direita estão instalados, formando bancadas evangélicas ou
conservadoras em suas ações dentro do Congresso Nacional, Assembleias
legislativas e Câmaras de Vereadores em diferentes Estados brasileiros. O que se
pode observar na atualidade é que, estes movimentos possuem raízes
internacionais, tendo o conservadorismo norte-americano um dos mais fortes,
além de grupos neonazistas e/ou neofascistas que atuam na França, Inglaterra,
Alemanha, Itália, Hungria, Ucrânia, entre tantos outros.
Estes movimentos se utilizam de um fundamentalismo Evangélico
e Católico, bem como em grupos sociais da elite que apoiam financeiramente os
grupos de extrema-direita para combater grupos, partidos e movimentos de
esquerda. Sempre que um partido da classe trabalhadora ascende ao poder central
de algum país, passa a existir uma verdadeira massa de grupos antidemocráticos
para impedir que estes governos consigam êxito em suas políticas.
Um dos pontos contrastantes do fascismo tanto na sua origem,
quanto na atualidade é a incapacidade em consolidar um sistema econômico que
seja diferente do liberalismo econômico ou do socialismo, pois em todas as
situações em que o fascismo se instaurou, como na Itália, Alemanha, Espanha,
Portugal entre outros países europeus, o centralismo e o totalitarismo
dificultaram as suas ações econômicas. O outro fator é a situação de extremismo
que gera uma constante onda de violência, ódio e tensões sociais, alimentando
conflitos internos e contradições sociais muito fortes.
Ao estudar autores como Azambuja
(2008), vale registrar que antes do fascismo italiano e do nazismo alemão, tivemos
a tentativa totalitária de Napoleão Bonaparte, como um líder e estadista
francês que se aproveitou da Revolução Francesa e militarmente ascendeu ao
poder, tentando reestabelecer o antigo império franco-prussiano que se estendia
por terras que hoje são a França, partes da Espanha, Alemanha, Áustria e grande
parte da Itália, entre outros países. Napoleão tentou gerir um governo centralizado
enquanto imperador e general. As grandes batalhas e reconquistas territoriais da
França Napoleônica, inspiraram lideranças de outros impérios para a geopolítica
das potências imperialistas do século XIX, que se estendeu até o século XX, em
especial com as tentativas de Adolf Hitler e o próprio Benito Mussolini. Napoleão
manteve a França como uma República, mas na verdade o que predominava era uma espécie
de ditadura militar (AZAMBUJA, 2008).
O que podemos deduzir dos regimes totalitários e militaristas, centralizados na liderança de alguma figura política, influenciaram as bases para a formação do fascismo. Mas como podemos identificar, ainda existem marcas destes antigos regimes totalitários em nossa realidade política que chegaram até o século XXI?
Ao delimitarmos o início do século XXI, temos por base a desintegração do leste europeu e do Bloco Soviético que era uma herança do stalinismo de partido único e de regime totalitário e centralizado. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (Ex-URSS – 1917-1992), não é objetivo da pesquisa, mas vale registrar que Joseph Stalin foi o líder máximo da URSS, entre 1922-1953. O que aconteceu na URSS, consideradas as complexidades políticas e econômicas deste bloco de países, entres os quais a Rússia, criaram analogias com o fascismo italiano.
Podemos dizer que a URSS foi
fundamental para a derrocada dos regimes nazistas e fascistas adotados pela Alemanha
e a Itália durante a Segunda Guerra Mundial, até certo ponto impedindo os
objetivos de expansionismo e totalitarismo político de Hitler e Mussolini. Um
dos pontos centrais dessa derrocada foi a capacidade bélica e unidade militar
do Exército Vermelho (URSS). Muitas são as críticas do mundo capitalista ao
stalinismo soviético, em especial, as ideias de totalitarismo político
centralizada no partido único, criação de uma burocracia estatal e o culto a
personalidade do líder máximo Joseph Stalin. Feitas estas ressalvas, vale
registrar que existem grandes diferenças entre o fascismo e o nazismo em
relação ao socialismo real que foi adotado na URSS. O principal aspecto foi destituição
da propriedade privada dos meios de produção e a consolidação de uma política
estatal desenvolvimentista coletiva, que envolveu diretamente mais de 20
repúblicas federativas.
De
acordo com Marcuse (1999), existe uma gigante aproximação entre a tecnologia, a
guerra e fascismo. Todos os tipos de mecanismos foram usados com a introdução
de regimes totalitários e diante dos horrores da Segunda Guerra Mundial, em especial com
as atrocidades contra os judeus na Alemanha, o fascismo e o nazismo foram
derrotados durante a Segunda Guerra Mundial, tanto pelos países capitalistas
liberais (Reino Unido, França, USA entre outros, quanto pela URSS. Com isso, todos
os partidos fascistas e nazistas do ocidente e do oriente foram dissolvidos e
colocados na ilegalidade. Nas várias constituições de base democrática, o
fascismo ou o nazismo foram banidos e qualquer partido que tentasse incluir
estes termos em suas cartas programas ou manifestos políticos eram barrados
legalmente (BOBBIO, 2000).
Mas, entre 1946 e 1992 passamos a
viver uma forte disputa político ideológica entre os países identificados com
as potências capitalistas liberais e os países ditos socialistas. Esse período
era identificado como “Guerra Fria”, pois as duas superpotências geopolíticas
(USA X URSS), não se atacavam diretamente, mas defendiam seus interesses
geoestratégicos nos diferentes continentes e regiões. Guerras em escala
regionais ocorreram em diferentes partes do mundo a começar pelos territórios
coreanos, vietnamitas, africanos, do Oriente Médio e algumas áreas da América
Latina.
Como políticas para conter o avanço
de um ou do outro bloco em territórios estratégicos, os dois regimes apoiaram e
contribuíram para a instalação de governos e regimes ditatoriais em quase todos
os continentes. As ditaduras militares, também se tornaram comuns em países
africanos que conseguiam conquistar suas independências coloniais, gerando o
que podemos afirmar como governos que eram obrigados a seguir este ou aquele
bloco internacional. Nestes países, tanto os movimentos socialistas, quanto os
movimentos de independência colonial, apostavam em governos ditatoriais.
As ditaduras militares geraram uma espécie
de governos totalitários governados por generais, que em todas as situações se mantinham
no poder com apoio geopolítico e geoestratégico das potências capitalistas
imperialistas e nas zonas de influência da URSS, seguia-se a mesma lógica.
Diante destes cenários políticos e geopolíticos internacionais e nacionais,
percebemos que os germes do fascismo e até mesmo do nazismo, ainda continuavam
no imaginário político das diferentes sociedades.
Outro importante aspecto político
que precisa de análise é o reconhecimento de que, o controle político e
territorial nos diferentes países, com exceção da URSS, que provocou a estatização
das propriedades privadas dos meios de produção, nos países ditos capitalistas
ou liberais, estes domínios continuaram nas mãos das elites dominantes, que
mantiveram também o legado político e jurídico dos estados, mesmo que alguns
destes estivessem sendo governados por generais.
O estado capitalista manteve o status
cor das elites agrárias e dos grupos capitalistas urbanos. Nestes países,
ao longo da guerra fria, apesar dos avanços tecnológicos, aumentaram as
desigualdades sociais entre as classes dominantes e o proletariado. A pobreza,
o analfabetismo, a falta de moradia, educação, saúde e de segurança pública criaram
um verdadeiro fosso entre riqueza e pobreza (CASTRO, 1956). O autor denuncia
essas desigualdades em seu livro “Geopolítica da Fome”, tendo sido o mesmo
perseguido e cassado do seu mandato de Deputado Federal (PTB) pelo AI-1, com a
instalação da Ditadura Militar que passou a vigorar no Brasil entre 1964-1985.
Por onde anda o fascismo e o nazismo, em
meio a este longo período de Guerra Fria? Se fossemos mapear ou identificar as
marcas do fascismo no Brasil, teríamos que voltar para as décadas de 1930, com
o Movimento Ação Integralista Brasileira ( (AIB, 1932-1937), que mesmo não tendo chegado
oficialmente ao poder executivo do Brasil, foi base para que Getúlio Vargas,
usasse os integralistas em suas bases políticas para em seguida, lhes colar na
ilegalidade política e na dissolução do partido (AZAMBUJA, 2008).
Se para Raffestin (1993), as disputas
políticas e territoriais devem levar em consideração as forças populares, para
além da dominação política do estado-nação, vemos que em situações de
autoritarismo ou de ditaduras militares, os regimes antidemocráticos, impedem a
participação popular direta, suscitando movimentos de resistência, que quase sempre,
são sufocados pelas forças militares controladas por aqueles que estão no
poder.
O Brasil é um dos melhores exemplos
para entendermos onde estão as marcas fascistas que atualmente emergem com
tanta força em diferentes países do mundo e que inclusive, são alimentadas por
grupos conservadores e extremistas instalados em países como Estados Unidos ou
Ucrânia, considerados como exemplos. No Brasil, tivemos vários momentos em que
o país foi politicamente estruturado com base em regimes ditatoriais. No
império que era centralizado na figura do imperador (1822-1889), com a destituição
do império com um golpe militar promovido pelos marechais (1889-1930),
identificado como Primeira República. A também conhecida como República Velha,
foi constituída por um regime militar e por uma elite agrária controlada pelos
grandes produtores de café (PRADO JR. 2011), com publicação original em 1956.
A era Vargas foi outro importante
momento político do Brasil e que de acordo com Prado Jr. (2011), marcou as
bases para a organização sistêmica do fascismo no Brasil. Historicamente esse período
Vargas é subdivido em duas partes. A primeira diz respeito a Revolução de 1930
até 1937 (Segunda República) e entre 1937 até 1945 (República Nova). Esse é um
período em que tivemos inspiração fascista e populista em governos ditatoriais,
mais fortemente apoiados em massas populares, tendo em Getúlio Vargas a figura
que conseguia unificar os interesses políticos nacionais e pessoais. Durante
esse período, Vargas deu vasão aos que defendiam o ideário fascista, bem como
ancorou seu governo em grupos oligarcas regionais e gerou políticas tipicamente
nacionalistas, com boas relações entre o capital e o trabalho, em que o Estado
passou a mediar os conflitos classistas.
Para Prado Jr. (2011), Vargas
tolerou os integralistas (fascistas brasileiros) até 1937, se utilizando de
algumas das suas ideias nacionalistas, centralizadoras e autoritárias, mais em
1937 colocou o movimento integralista na ilegalidade e dissolveu a AIB (similar
ao Partido Nacional Fascista italiano). Mas será que o movimento foi de fato
dissolvido, em meio ao Estado Novo, implementado por Getúlio Vargas? Chiavenato
(2008), destacou que Vargas vacilou entre 1937 e 1940, em relação ao uma posição
oficial do Brasil, diante da Segunda Guerra mundial, com grande tendência em
apoiar o nazifascismo (Alemanha e Itália), vale lembrar que no Brasil, existiam
milhões de imigrantes italianos e alemães e que de repente poderiam estar dispostos
a lutar ao lado dos seus compatriotas, caso fosse necessário. Mas a pressão
internacional, especialmente vinda dos Estados Unidos, fez o governo Vargas
recuar e entrar na Guerra ao lado dos americanos, inclusive com a seção
territorial de Natal e Parnamirim (RN) para a instalação de uma base militar
americana para ações geopolíticas durante a segunda guerra mundial.
Como já explicamos, o pós-segunda
guerra mundial (1945) influenciou a vida política mundial, com uma clara
redefinição política e reagrupamento de forças políticas e ideológicas que haviam
varrido os ideários nazistas e fascistas, não apenas na Europa, mas em todo o
mundo. Os termos Fascismo e Nazismo foram proibidos em todos os países, com o
impedimento legal de organização política e o simples uso de símbolos ou ideias
manifestadas em qualquer documento, era motivo de processos e prisões. Com a Guerra
Fria e com as ditaduras militares em países capitalistas, muitos partidos socialistas
e comunistas também foram perseguidos, dissolvidos e colocados na ilegalidade,
assim como nos países ligados a URSS, estes países passaram a adotar a política
do partido único, centralizado na figura dos Partidos Comunistas e/ou
Socialistas (VESENTINI, 1990).
De acordo com Prado Jr, (1970), vale registrar que os
movimentos políticos do Brasil pós segunda guerra, ganharam certa abertura
política e exercícios para a instalação de processos democráticos nacionais,
mas por incrível que parece, foi um curto período que ficou conhecido como Quarta
República (1945-1964). Esse também é um período de abertura econômica para o
imperialismo capitalista americano, que ascendeu do pós-guerra enquanto uma
grande potência política e econômica.
Para Prado Jr. (1970), multinacionais americanas passaram a
se interessar pelo território brasileiro e as oligarquias rurais ainda eram
fortes grupos políticos que disputavam controle político e econômicos regionais,
cada vez mais nacionais. O Brasil ainda mantinha grande isolamento territorial
e atraso de desenvolvimento urbano industrial. Sua balança comercial ainda era
predominantemente dependente de gêneros agrícolas e extrativismo.
Podemos dizer que os ideários fascistas
do slogan Deus, Pátria e Família ainda estavam bem arraigados nas tradições
políticas oligarcas que controlavam os estados e municípios em todo o país, e
mesmo não podendo se constituir enquanto partido organizado, com dizeres
fascistas ou nazistas, passaram a adotar princípios do conservadorismo da
chamada extrema direita, voltadas para o discurso do cristianismo e do
anticomunismo que se propagavam enquanto ideologias do imperialismo capitalista
americano.
Para Prado Jr. (1970), palavras como família tradicional
cristã, conservadorismo, amor à pátria e defesa incondicional da propriedade
privada, se tornaram palavras de ordem de alguns grupos que passaram a se
agrupar em torno de alguns partidos que surgiram entre 1945 e 1964. Granja (2021), destaca que além de três partidos com capilaridade nacional representados
como Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), União Democrática Nacional (UDN) e Partido
Social Democrático (PSD), surgiram ou se reagruparam outros partidos menores
como: Partido Social Progressista (PSP); Partido Republicano (PR); Partido Democrata
Cristão (PDC) e a antiga Ação Integradora Brasileira (AIB) que agora estava
organizada como Partido da Representação Popular (PRP), que era liderado por
Plínio Salgado.
Respeitadas as diferenças políticas regionais e o surgimento
ou ressurgimento de partidos que em suas cartas programas não existiam alusões
ao fascismo ou ao nazismo, mas a defesa da família tradicional cristã brasileira,
defesa incondicional da propriedade privada e defesa do conservadorismo e da
tradição, eram e ainda são os principais tópicos do manifesto políticos de
dezenas de partidos políticos do Brasil. Para Chiavenato (1981), os anos que
antecederam a Ditadura Militar (1964-1985), o Brasil viveu um misto de abertura
política e de renascimento do fascismo dissimulado em partidos sociais cristãos
conservadores e de extrema direita.
Granja (2021) alerta para a ideia de que no Brasil, se instalou um golpe militar com uma ditadura militar-fascista. “vale recordar o 13 de março de 1964, quando o presidente João Goulart pronunciou o famoso discurso do comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Conhecido também como o Comício das Reformas de Base, nele Jango comprometeu o governo com um programa de mudanças estruturais no país” (GRANJA, 2021, p.1).
O autor
aponta que entre as reformas estruturantes ou de base estavam: Reforma Agrária
em terras federais que se encontravam as margens das rodovias, ferrovias e
açudes; investimento de 15% da renda em educação com base no método Paulo
Freire; controle da remessa de lucros das multinacionais para o exterior,
reforma tributária, com redução progressiva das alíquotas do imposta de renda,
de acordo com a renda do cidadão, reforma eleitoral com direitos para
analfabetos e militares e coerção à interferência do poder econômico em
campanhas eleitorais (GRANJA, 2021).
Para Granja (2021) estes foram os elementos políticos que
desencadearam o golpe militar do dia 1º de abril de 1964/1985. Em plena Guerra
Fria, estas medidas golpistas se tornam comuns em dezenas de países da América
Latina, com direta interferência dos centros de informação dos Estados Unidos e
total apoio das elites nacionais e dos grupos de extrema-direita que já tinha
espaço político no cenário nacional. Os grandes jornais de circulação nacional como:
Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e Jornal O Globo, além de jornais
regionais da imprensa burguesa nacional, passou a desferir fortes ataques ao
governo Jango, com apoio declarado ao Golpe Militar (GRANJA, 2021).
Os militares assumiram o poder e
passaram a atacar fortemente os grupos considerados de esquerda, movimentos
operários, sindicais, camponeses e estudantis. Com o fechamento do Congresso
Nacional e a cassação de mandatos parlamentares, além do fechamento de assembleias
legislativas, além da perseguição a partidos como o Partido Comunista Brasileiro
(PCB), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), parlamentares do Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB), Partido Socialista Brasileiro (PSB) entre tantos
outros que se colocaram contrários ao golpe militar. Governos estaduais comandados por partidos de esquerda foram completamente desmantelados, com as lideranças e governadores presos ou exiliados.
De acordo com Granja (2021), foram criados vários cenários de protestos das elites dominantes, inclusive com apoio de conservadores cristãos ou católicos e dos movimentos de Deus, Pátria e Família, base de sustentação fascista no Brasil, todos estiveram na linha de frente com o pedido de intervenção militar no país. Rádios e Jornais da direita conservadora garantiram a propaganda golpistas e antidemocrática, os Estados Unidos deram o suporte e até forças armadas para impedir alguma resistência ao golpe estavam mobilizadas para este fim. Nesse sentido, Granjas (2021), recupera um editorial do Jornal o Globo (02 de abril de 1964), da manhã seguinte a derrocada da ordem democrática:
“Vive a Nação dias gloriosos. Porque
souberam unir-se todos os patriotas (…) para salvar o que é essencial: a
democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas
(…) o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo
para rumos contrários à sua vocação e tradições. (…) Poderemos, desde hoje,
encarar o futuro confiantemente (…) Salvos da comunização que celeremente se
preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os
protegeram de seus inimigos. (…) Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos,
os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as
Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo. (…) A
esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. (…)
Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes
militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre,
procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos
(…).” [O GLOBO, 02/04/1964].
Este fragmento golpista propagado
pela imprensa burguesa nacional, é a clara definição de que o fascismo deixou
diferentes marcas no cenário político nacional, em especial durante os regimes
de exceção, com o totalitarismo dos generais, o autoritarismo típico e o
discurso da segurança nacional para a manutenção da ordem pública
e a garantia do patriotismo dos cidadãos de bem.
Foram 21 anos de um Regime militar
autoritário, com presidentes escolhidos por um congresso completamente submisso
ao regime, baseado em um bipartidarismo e a um Supremo Tribunal da Justiça
Militar. Os governadores de Estados eram biônicos, ou seja, indicados pelo
presidente de República, sempre era escolhido por uma junta militar, entre
generais e indiretamente aprovado pelo Congresso Nacional.
O bipartidarismo era formado pela
Aliança Nacional Renovadora (ARENA), que era a reunião de todos os grupos
políticos da direita a extrema-direita, elitista, conservadora oligarca do
país. O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) era um grupo de oligarcas que
pousavam de oposição democrática, que não fazia oposição em quase nada ao
regime. Claro que em escala regional, alguns grupos da esquerda conseguiram se
infiltrar no MDB e tentavam sobreviver ao difícil período antidemocrático.
Milhares de intelectuais, artistas,
juristas e políticos de esquerda foram obrigados a se exiliarem em diferentes
países e outros milhares foram presos, torturados, mortos ou desaparecidos nos
porões da Ditadura Militar. Os grupos políticos de esquerda passaram a fazer
resistência ao regime autoritário, através de movimentos guerrilheiros urbanos
e rurais, com ações armadas. Quando algum militante era preso, rapidamente seu
rosto era estampado em jornais, como Comunistas e inimigo da pátria.
De acordo com Marcondes
Filho (1990), a violência política está no seio dos regimes totalitários e
antidemocráticos que se instalaram mundialmente, sempre com um discurso que
estão agindo em defesa dos interesses e desígnios da própria sociedade. Então
estas práticas comuns aos regimes autoritários em países como o Brasil, Argentina
ou Chile durante a Ditadura Militar de Pinochet (1972/1987), com direto apoio
norte-americano, desenrolam marcas de uma profunda aproximação entre o militarismo
autoritário e o fascismo político.
Para os fascistas, a prisão, tortura
morte ou desaparecimento de suposto comunista era motivo de festa, de alegria e
de realização do regime totalitário, aos moldes do que ocorreu na Itália,
Alemanha de Mussolini e Hitler. Propagandas anticomunistas eram constantes em
rádios, jornais e cartazes, com estímulos para que a população entregasse
supostos clandestinos e fugitivos da justiça militar brasileira.
As marcas do fascismo estão em
diferentes cenas da vida política ocidental e oriental da Europa, durante
décadas pós-segunda guerra mundial e, por incrível que pareça, ganhou solo fértil
em países capitalistas subdesenvolvidos que eram controlados ou influenciados geopoliticamente
pelos Estados Unidos. Foi assim no Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile,
Venezuela, Colômbia, Panamá, entre outras dezenas, isso apenas na América
Latina (OLIC, 1992).
Mesmo que os termos fascismo e
nazismos tenham sido obscurecidos durante a Guerra Fria, nos porões das
ditaduras militares do ocidente e nas práticas dos grupos políticos
conservadores e extremistas, além do judiciário controlado pelos militares e da imprensa da elite, estas
marcas estavam presentes em suas diferentes ações. Um dos fundamentos do fascismo
é alimentar práticas totalitárias e antidemocráticas, inclusive usando o
discurso da liberdade e defesa dos direitos sociais. Os fascistas utilizam o
ideário cristão para praticar crimes que Cristo condenava em sua passagem pela
Terra.
Após a queda do Muro de Berlim,
reunificação da Alemanha (1989), desintegração do Leste Europeu e fim da URSS
(1992), o discurso de que o socialismo havia morrido e que a globalização e o
neoliberalismo eram a única alternativa política e econômica do mundo, que
grupos de extrema direita passaram a dar as caras no cenário mundial,
identificados com as causas e ideologias nazifascistas do começo do século XX
(VESENTINI, 2008).
Nos países subdesenvolvidos que
adotavam regimes militares autoritários como foi o caso do Brasil, também se
iniciaram aberturas políticas, que viriam com os países extremamente empobrecidos
e endividados externamente, depois de políticas econômicas desastrosas adotadas
pelos generais no poder. O mesmo ocorreu nos países latino-americanos como
Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai entre outros. Em algumas nações como Colômbia,
Peru, Nicarágua e El Salvador, movimentos revolucionários ainda lutavam contra
seus regimes autoritários, sustentando bandeiras socialistas em seus
territórios (OILIC, 1992).
No Brasil a abertura política se seu
a partir de 1979, mas só se consolidou por volta de 1988, com a instalação de
uma Assembleia Nacional Constituinte e a promulgação da Constituição que marcou
o início da Nova República. Os movimentos sociais já estavam espalhados por
todo o país, mas os militares fizeram todos os tipos de manobras dentro do
Congresso Nacional para enterrar todos os seus crimes políticos e humanitários,
aprovando uma Lei de Anistia em que abriam o país para um lento e gradual
regime democrático, sem que houvesse qualquer tipo de comissão para fazer uma
apuração e punição aos que cometeram crimes durante o regime antidemocrático.
Assim o Brasil começou a respirar um
pouco de liberdade e as atrocidades autoritárias do regime, foram barridas para
debaixo do tapete da história. Alguns atos que estavam em vigor durante a
ditadura como a volta de pluripartidarismo, passaram a reger a vida política
nacional, dando origem aos vários grupos políticos e suas lideranças que ou
estavam exilados ou estavam no grande guarda-chuva do bipartidarismo ARENA e
MDB (FEBER, 2010). Nessa perspectiva, também surgiram novas lideranças
políticas populares e nova siglas partidárias:
Vale apenas registrar que ainda existes grupos políticos clandestinos ou ilegais que ainda não conseguiram regular legalmente suas agremiações partidárias ou simplesmente preferem atuar fora do campo político partidário oficial. Mas esse quadro demonstrativo organizado pelo portal histórialivre.com (FEBER, 2010), nos dá uma noção aproximada e oficial do que passou a existir com a reabertura político do Brasil, especialmente entre 1979 até 1988, mas que, até certo ponto já se encontra desatualizada, visto que novos partidos já foram legalizados enquanto outros foram fundidos e renomeados, além de alguns que aguardam a sua legalização. Depois de 2010, surgiram novas nomenclaturas e novos raças partidários que demando o registro oficial de mais de 33 partidos políticos, além de uma outra dezena que aguardam suas legalizações.
Essa radiografia político-partidária
do Brasil deixa uma marca profunda na gênese do fascismo brasileiro, ao exemplo,
da Aliança Integralista Brasileira (AIB), que deu suporte ao golpe militar e a
Ditadura Militar-Fascista, com a instalação da ARENA e com a reabertura
política passou a congregar pelo menos uma dezena de novas agremiações com as velhas
orientação da extrema direita e da direita nacionalista, patriótica
e corrupta (base do Centrão no Congresso), com ataques diretos aos direitos da classe trabalhadora e sempre
governando para as elites dominantes, além de representarem os interesses de
empresas estrangeiras e de grupos econômicos que influenciam o poder judiciários
e controlam os principais meios de comunicação como imprensa, editoras, revistas, sistema
de rádio, TV aberta, fechada e atualmente grandes portais de notícia.
Mariano Neto (2016) faz um
levantamento sobre os ataques antidemocráticos recentes contra o governo da ex-presidente
Dilma Rousseff (PT) e dos ataques sistemáticos aos governo do ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), governos que funcionaram entre os anos de 2002
a 2008 e continuaram com Dilma até 2015, quando foi interrompido com um golpe
político, jurídico e midiático, orquestrado principalmente por estes partidos
que se originaram do antigo MDB e ARENA e que davam sustentação ao regime
militar (1964-1985). No impeachment contra a presidenta Dilma, até
partidos que se consideravam socialdemocratas, como PSDB, estiveram na linha
de frente desse golpe, contribuindo fortemente para que os grupos de extrema-direita
passassem a defender o retorno da Ditadura Militar.
O golpe contra a ex-presidente Dilma
Rousseff (PT) continuou em uma violenta campanha de difamação e ataques contra
o Partido dos Trabalhadores (PT) e demais partidos de esquerda que defenderam a
continuidade do mandato da presidenta. Também foi patente a participação de
grandes empresários, agropecuaristas e até de interesses externos que queriam o
fim do governo popular que atrapalhava os interesses das políticas neoliberais
das grandes corporações transnacionais e multinacionais, em especial do
capitalismo americano (MARIANO NETO, 2016). Até mesmo o PMDB que era parte do
governo tendo Michel Temer (MDB) como vice-presidente foi um dos principais articuladores
do golpe, que inclusive lhe manteve no poder, tendo ocorrido apenas o impedimento
político da presidenta.
Ficou tão claro que se tratou de um golpe
contra a democracia e o exercício de poder político da presidenta Dilma, que os
deputados, senadores e fragrante omissão do Supremo Tribunal da Justiça,
deixaram que o ritual golpista ocorresse sem nenhum percalço. Para complicar,
foram cassados os direitos do ex-presidente Lula (PT) que figurava em todos as
pesquisas como o favorito para ganhas as eleições de 2018, no primeiro turno.
Supostos crimes praticados pelo presidente, lhes impediram de concorrer as
eleições e numa campanha criminosa, permeada por crimes eleitorais de uso da
máquina pública e de grande investimento do poder econômico geraram uma eleição
para o candidato Jair Bolsonaro (Sem Partido), de extrema-direita e com
práticas e marcas fascistas chegou ao poder.
Com um governo desastroso e com
práticas antidemocrática, além de dezenas de denuncias de crimes de corrupção,
tanto do presidente, quando dos filhos e aliados políticos. O Governo
Bolsonaro, vem conseguindo fazer profundas reformas políticas que prejudicam
principalmente a classe trabalhadora e beneficial as elites dominantes, tanto
locais quanto estrangeiras. Vivendo um caos administrativo e político, seguido
por uma crise econômica, além de uma pandemia do Covid-19, além de crimes
ambientais, levaram o Brasil para uma triste e difícil realidade política,
econômica, ambiental e de saúde pública.
O Governo Bolsonaro e seus
apoiadores políticos de extrema-direita, direita e centro-direita, a todo
momento, ameaçam a instabilidade política e o regime democrático, violentos
ataques contra as instituições que por algum motivo criticam o governo ou
encaminham ações contra o governo. O Brasil, saiu de um governo estável e
democrático para um governo golpista de Michel Temer (MDB), e com Bolsonaro se tornou um
governo nitidamente autoritário e antidemocrático, passando a nomear ministro e
demais cargos em escala federal para militares reformados e aliados políticos
sem qualificação para os cargos. Isso tem gerado uma verdadeira catástrofe das
instituições e dos interesses nacionais.
A maior demonstração de marcas assemelhados ao fascismo no Brasil recente, estão diretamente ligadas as declarações verbais
públicas e através de redes sociais propagadas pelo presidente Jair Bolsonaro
(Sem Partido) e seu vice-presidente o General Amilton Mourão (PRTB). Desde o
período eleitoral, quando o presidente ainda estava filado ao (PSL), que eram
comuns em atos políticos ou manifestações antidemocráticas aparecerem grupos
neonazistas ou nazifascistas declarando apoio a chapa Bolsonaro/Mourão.
Frases relativas a volta da Ditadura Militar, ao fechamento
do Congresso e do STF, através da sugestão de reedição do Ato Institucional nº5 (AI-5),
ataques aos movimentos sociais, ataques contra as etnias indígenas e as
populações quilombolas, além dos camponeses ligados ao Movimentos dos
Trabalhadores Sem Terra (MST), ataques ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)
e as suas lideranças, ataques aos Movimentos Negros e aos Movimentos LGBTQ+,
ataques aos Movimentos de Mulheres, entre tantos outros grupos identificados de
esquerda, que são fortemente ameaçados como Comunistas ou Petistas, com afirmações de que deveriam
ser expulsos do Brasil e até ameaças de morte e morte de fato, como aconteceu
contra a Vereadora Carioca Marielle Franco (PSOL), assassinada em 2018 por
grupos milicianos do Rio de Janeiro e até o momento, ainda não foram encontrados,
nem presos ou condenados pelo terrível crime. Vale o registro de que Marielle
era pré-candidata a Senadora pelo Psol e ameaçava frontalmente o filho do então
candidato a presidente Jair Bolsonaro (ex-PSL).
As marcas do fascismo se tornaram
mais visíveis com a criação dos sistemas de comunicação e informação
disponíveis em redes sociais através de portais, canais e outros mecanismos de
divulgação e propagação de informações, notícias e boatos, em muitos casos,
falsos ou mentirosos, sobre toda e qualquer ideologia política, religiosa e
cultural. Os grupos nazifascistas que anteriormente não tinham muito como
divulgar as suas ideias em massa, com o advento da internet e das redes
sociais, passaram a atuar mais fortemente. Por trás desses grupos, geralmente, ações de extrema-direita que fazem parte das elites dominantes, passam a
financiar toda uma rede tecnológica virtual para que as notícias e contrainformação
de interesse fascista possam atingir o maior número de pessoas.
Recentemente, tivemos uma pauta de
profundas marcas fascista em nosso país, ocorreu durante todo o mês de agosto
de 2021, com vistas a um ato público golpista que ocorreu no dia 07 de
setembro de 2021, data comemorativa da Independência Política do Brasil que
ocorreu em 1822 e que se aproxima dos 200 anos.
Bolsonaro e seu grupo político, apoiado por grupos
evangélicos de extrema-direita, grandes produtores do agronegócio, partidos e
grupos de extrema-direita, além de empresários dos transportes rodoviários
(caminhoneiros), passaram a financiar materiais de campanha com imagens
militaristas, anunciando a necessidade do fechamento do STF, entre outras
atrocidades como um Golpe Militar e a instalação do Estado de Sítio e suspensão
dos direitos políticos constitucionais, passando o comando do país ao regime
militar com a continuidade de Bolsonaro na presidência.
A ideia do presidente era de mobilizar cerca de 1 milhão de
pessoas em Brasília, mais de 1 milhão em São Paulo, no Rio de Janeiro e em todas
as demais capitais do país, além de grandes centros urbanos com mais de 50 mil
pessoas, gerando o que eles consideravam uma demonstração monumental de força
política que justificasse o presidente para a instalação oficial do Estado de
Sítio e a desintegração do regime constitucional democrático.
Ao final do dia 07 de setembro, as imagens não eram
animadoras, pois, apesar de muita gente nas ruas, estes números eram muito
pequenos, com estatísticas da própria Polícia Militar Distrital, que reconhecia um limite
de no máximo 100 mil pessoas em Brasília, também em grandes centros como São
Paulo e Rio de Janeiro, com essa mesma média de pessoas. Mesmo assim, o
presidente fez sobrevoos nos locais dos atos e ainda fez um discurso inflamado
e de ataques ao STF e aos demais poderes constitucionais, tanto em Brasília,
quanto em São Paulo, com flagrante e criminais ataques a Constituição e a
Democracia brasileira.
Ao final da noite de 07/09/2021, os grupos bolsonaristas chegaram a comemorar
um falso comunicado de que o presidente havia convocado o Conselho de República
e que havia decretado Estado de Sítio no país. Para piorar a situação, no dia
seguinte durante a madrugada, o presidente enviou um comunicado de voz aos seus
apoiadores caminhoneiros que eles liberassem as rodovias, pois os atos não
faziam mais sentido e poderiam ampliar a crise econômica, gerando desabastecimentos
e aumentando a já elevada inflação do país.
Esse comunicado gerou dúvidas e insatisfação entre seus próprios
apoiadores.
Mas o pior estava por vir, durante o dia, o presidente
aconselhado pelo ex-presidente e golpista Michel Temer (MDB), redigiram um
documento, em que o presidente assinou e justificou que os atos foram impensados
e que as suas falas foram estabanadas e despropositadas, que em especial
proferidas contra o Ministro do STF Alexandre de Moraes. Ao mesmo tempo em que
faz um pedido formal de desculpas, se compromete com a manutenção da ordem
constitucional e com os princípios democráticos, garantindo a independência e a
harmonia entre os poderes da República.
Esta nota oficial do presidente Bolsonaro gerou muita revolta e indignação entre seus grupos de apoio mais radicais ou extremistas. Grupos autoritários e com marcas fascistas, passaram a considerar que o presidente havia arregado ou recuado de sua promessa, que parece era de desintegrar os poderes constituídos, através de um golpe militar que lhe garantisse a continuidade do mandato de presidente.
Durante os atos do dia 7 de setembro, foram registrados milhares de
cartazes, faixas e placas sistematicamente produzidas, que atacavam o STF, a
Justiça Eleitoral e o sistema de votação eletrônica, que pediam a volta da
ditadura militar entre outros absurdos antidemocráticos.
Depois de todo um mês de preparativos, com dinheiro dos reis da soja,
outros empresários também de supostos recursos públicos para o financiamento
dos atos golpistas do 7/9/21, tudo caminhava para uma tragédia nacional. Os
radicais aliados do presidente acampados em Brasília aguardavam o anúncio do
Estado de Sítio e até vibraram com um anúncio falso.
Os
presidentes da Câmara e do Senado, com notas mais neutras que detergente, foram notas quase que como declaração de omissões ou posições que colaboraram com os atos de Bolsonaro. Nesse momento,
o país vive a perplexidade de um governo golpista e ameaçador da ordem
democrática. Essa retratação de Bolsonaro é mais uma farsa, diante da
incompetência governamental. O Brasil vive um caos econômico, pandemia,
ambiental, social e político. O governo Bolsonaro deve ser responsabilizado. Em
um país democraticamente sério, este presidente estaria preso e seu governo
dissolvido.
Longe
de ser um fascista, na compreensão histórica do termo e de sua ideologia,
Bolsonaro, assim como outros governos que ascenderam ao poder através do voto e
da democracia, tentam confundir a sociedade e impor uma lógica
antidemocrática e totalitária, tentam gerar incertezas para o mundo e alimentam
ideias de inimigos políticos como um comunismo, que segundo eles próprios já
havia sido derrotado com a desintegração da URSS.
Então,
todo e qualquer movimento que defende interesses sociais e políticas públicas,
são taxados de comunistas e esquerdistas que precisam ser combatidos como
inimigos políticos. O pior é que autoridades políticas liberais e pretensamente
democráticas, em nome dos seus interesses próprios e da sua classe sociais,
terminam por contribuir e até mesmo, alimentar estes desequilibrados políticos.
Mas as forças de fato democráticas, estão atentas e em luta contra estes grupos
políticos que apostam no caos social para tirarem vantagens políticas e econômicas.
_______________________
*Belarmino Mariano Neto – Doutor em Sociologia
pela UFPB/UFCG (2006); Mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela UFPB/UEPB
(1999); Especialista em Gestão Territorial pela UFPB (1995); Aperfeiçoamento em
Geografia Agrária pelo CNPq/UFPB (1993); graduado em Geografia pela UFPB (1991).
Professor da UEPB Campus III, nas áreas de Teoria da Geografia, Geografia
Política e Geopolítica e Líder do Grupo de Pesquisas “Olhares Geográficos
(CNPq/UEPB/PRPGP).
como citar este artigo em seus trabalhos e pesquisas:
MARIANO NETO, Belarmino. GEOPOLÍTICA: UM SÉCULO DE FASCISMO E SUAS MARCAS NA ATUALIDADE. Guarabira/PB: guarabira50graus. Domingo, 12 de setembro de 2021. Disponível em: <http://guarabira50graus.blogspot.com/2021/09/geopolitica-um-seculo-de-fascismo-e.html >. Acesso em data e hora.
_____________________
REFERÊNCIAS
ARENDT, Hannah. Origens
do Totalitarismo. (Traduzido por Roberto Raposo). São Paulo: Editora de
Bolso, 2013.
ATTANÁSIO, Angelo. 100
anos de fascismo: ‘O perigo atual é que a democracia vire pressão com apoio
popular’, diz historiador Emílio Gentile. Brasil, BBC News Mundo. 24 de
março de 2019. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-47686939
> Acesso em 12/09/2021, em 04:10hs.
AZAMBUJA, Darcy. Introdução a Ciência Política. Rio de
Janeiro: Editora Globo, 2008,
BOBBIO,
Norberto. Teoria geral da política: a filosofia política e as lições dos
clássicos. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
CASTRO,
Josué de. Geopolítica da Fome. Rio de Janeiro: Editora Brasiliense,
1956.
CHIAVENATO, Julio José. Geopolítica,
Arma do Fascismo. Rio de Janeiro: Global Editora, 1981.
FEBER, Marcos. História
dos Partidos Políticos do Brasil. Setembro de 2010 (PDF). Disponível em
<http://www.historialivre.com/brasil/partidos_politicos.pdf
>. Acesso em 12/09/2021. As 01:30hs.
GIARDINA, Andrea. O mito
fascista da romanidade – Estudos Avançados, 2008. Formato pdf <https://www.scielo.br/j/ea/a/hbxLPbBs8gz5PGWcprsCY8d/?format=pdf&lang=pt
>. Acesso em 12/09/2021. 15:25 hs.
GRANJA,
Sérgio. Golpe Militar e Ditadura Militar-fascista. Rio de Janeiro:
Contrapoder, 2021. Disponível em: < https://contrapoder.net/colunas/golpe-militar-e-ditadura-militar-fascista/
>. Acesso em 12/09/2021, as 22:30hs.
MARCONDES
FILHO, Ciro. Violência Política. São Paulo: Moderna, 1990.
MARCUSE,
Herbet. Tecnologia, Guerra e fascismo. São Paulo: editora da Unesp, 1999.
MARIANO NETO, Belarmino. A Geopolítica do Golpe. Guarabira: Blog, 2016. Disponível em <http://guarabira50graus.blogspot.com.br/2016/04/a-geopolitica-do-golpe-contra.html> 12/09/201, as 23:53 hs.
OLIC,
Nelson Bacic. Geopolítica da América Latina. São Paulo: Moderna, 1992.
PISIER,
Evelyne. História das Ideias Políticas. São Paulo: Manole, 2004.
PRADO
JR. Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro: Companhia
das Letras, 2011.
RAFFESTIN, Claude. Por Uma Geografia do Poder.
São Paulo: Editora Ática, 1993.
VESSETINI, José William. Imperialismo e geopolítica global.
São Paulo: Editora papiros, 1990, 2ª ed.
VESENTINI,
José William. Controvérsias geográficas: epistemologia e política.
Confins – Revista Franco-Brasileira de Geografia. 2008, nº 02. https://doi.org/10.4000/confins.1162.


Nenhum comentário:
Postar um comentário