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segunda-feira, 8 de junho de 2026
Sob a sombra da suástica: uma crônica sobre o leite e o ódio
Por: Alessandra Almeida Del'Agnese
Vejam que espetáculo dantesco, que mise-en-scène da nossa estupidez tropical!
Era um brinde. Um gesto banal, à primeira vista. Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado ergueram seus copos, sorrindo para as câmeras, e beberam leite. O fazendeiro, o empresário, o político. O que poderia ser mais inofensivo? A menos que você saiba o código. A menos que você entenda que aquele líquido branco, para o neonazista, não é apenas um produto do agro. É símbolo de pureza racial. É o alimento do “ariano superior”, uma ideologia criminosa que já foi a pá de terra sobre 6 milhões de judeus.
Esse símbolo é um antigo “apito de cachorro” do Terceiro Reich, ligado à obsessiva estética da pureza racial, alimentar, moral. E você, caro leitor, que acredita na democracia, precisa saber: quando esses três ergueram o brinde pelo leite, estavam sinalizando para as sombras. Um chamamento àqueles que querem nos destruir, um convite para que se multipliquem.
E eles estão se multiplicando. O Brasil que, nos anos 1930, sediou a maior filial do Partido Nazista fora da Alemanha, agora vê a monstruosidade renascer com força brutal. Entre 2015 e 2022, segundo a antropóloga Adriana Dias, as células neonazistas no país saltaram de 72 para 1.117. Só em Santa Catarina, uma pesquisa da UFSC de 2022 contabilizou 320 desses núcleos, uma concentração por habitante que supera qualquer outro estado. O monstro não está mais na Europa. Ele está na sua rua, nos grupos de WhatsApp do seu bairro.
“Ah, mas é só um bando de jovens idiotas”, você pode pensar. Não. Não mesmo. A ONU já emitiu alertas sobre o fenômeno, e uma relatora especial expressou preocupação com o avanço do extremismo de direita no país. As operações da Polícia Federal, como a “Nuremberg” de 2025, desmantelaram grupos com estrutura hierarquizada, cobrança de mensalidade e planos para espalhar o terror. Ameaças reais, armas, planos. E o pior: cresceram 270,6% durante o governo do ex-presidente, que reiteradamente atacou minorias e deu salvo-conduto ao ódio. As instituições, como diria a filha de sobreviventes do Holocausto, Clara Levin Ant, assistem inertes a essa naturalização, uma tragédia silenciosa que se desenrola sob nossos narizes.
Onde está o Ministério Público? Onde está o Supremo Tribunal Federal, que já julgou o neonazista gaúcho Siegfried Ellwanger e definiu que o racismo é crime inafiançável? A simples existência dessas células é inconstitucional, uma afronta direta ao Estado Democrático de Direito. E ainda assim, vemos a máquina do Estado ranger, engrenagens enferrujadas que se movem com uma lentidão quase criminosa. É prevaricação. É um “fingir que não vê” que cheira a conivência. Enquanto isso, o discurso de ódio floresce na internet, e a falta de políticas públicas efetivas de enfrentamento permite que o nazismo se reorganize.
Este é o momento em que a história nos olha de frente. Não estamos falando de política partidária. Estamos falando de sobrevivência da democracia. Quando você vota na extrema-direita, não está apenas escolhendo um plano econômico ou uma gestão de saúde. Você está, como alerta o próprio presidente Lula em seus discursos, dando um cheque em branco para que o neofascismo e o neonazismo voltem a ocupar o centro da política nacional. E mais: estará autorizando, com o seu voto, que o crime organizado ideológico se sinta à vontade para agir.
É isso que você quer para o Brasil? Uma nação onde o direito de existir de um judeu, de um negro ou de um homossexual seja condicionado à “pureza” de alguns? Um país de toga e suástica? Pense nisso antes de erguer o próximo brinde. Porque o copo de leite que eles bebem, no fundo, é o veneno que estão tentando nos fazer engolir. E a resposta a única resposta decente é quebrar o copo, denunciar o crime e dizer, em alto e bom som: nunca mais.
Por, Alessandra Del’Agnese
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