sábado, 10 de outubro de 2026

Sou 60+ e já morei na rua de cemitério

Por Belarmino Mariano*

Quem tem entre 16 e 20 anos, não sabe o que é mortalidade infantil, não tem ideia de que eram feitas campanhas nos canais de TV para o Natal Sem Fome e nem imagina o que eram arrastões de miseráveis famintos e retirantes que em grandes grupos (bandos), saqueavam feiras livres do interior. 

Muitos colocavam obstáculos nas rodovias para bloquear caminhões de alimentos, que também eram saqueados. A extrema pobreza ou a pobreza extrema, levou as pessoas ao desespero total.

Isso mesmo, roubavam comida em plena luz do dia. O governo militar, instaurado em 1964, (ano em que eu nasci), organizava frentes de emergência em troca de cestas básicas com alimentos vencidos ou estragados.

Pessoas que não tinham terra e nem trabalho eram levadas a trabalhar na construção de rodagens e açudes, trabalho em troca de comida, e os senhores de terra locais, ainda usavam essas forças de trabalho em suas propriedades. 

O povo do Nordeste, em especial dos sertões, era humilhado, maltratado e vivia vestido em trapos e farrapos, usavam calçados velhos que recebiam de doação de parentes e ricos da cidade.

Meus pais eram sem terra e se retiraram da pobreza e da seca. Eu tinha 7 anos de idade, quando eles desembarcaram em João Pessoa, moramos na zona rural do paratibe, depois na zona rural do Conde e finalmente nos instalamos em Bayeux, tudo na Grande João Pessoa.

"Morar na rua do cemitério" é uma metáfora para dizer que da minha casa de pobreza, sempre via "o cortejo dos anjinhos", era como a gente chamava com as crianças que morriam prematuras, por fome (falta de alimentos), insegurança alimentar e desnutrição, como se fala hoje.

Então, não posso culpar os jovens por falta de consciência e por hoje, mesmo pobres, possuírem roupas boas e até de marcas, três ou quatro pares de tênis, celulares, bicicletas, escolas em tempo integral, transporte escolar, oportunidade para as práticas esportivas, entre tantas "pequenas regalias" que fazem inveja a um jovem africano que se tornou influence do YouTube.

Mas não posso deixar de cobrar dessa galera de 35 a 50 anos, que ficam de "c. doce", dando uma de otário ou imbecil. Caralho, somos fodhidos (com ph), explorados todos os dias, mas temos uma rede mínima de proteção e foi basicamente criada pelos governos de esquerda.

Aí tu vem com esse papo de "pobre de direita", querendo me convencer que um desgraçado, ladrão, golpista, miliciano, amigo de narcotraficante e inimigo da pátria é o melhor para o Brasil.

Caralho, em que porra de mundo tu vive? Que porra de merda circula na tua cabeça de camarão? Tu estava onde, quando morreram mais de 700 por falta de vacina? 

Porra tu passou boa parte da tua vida dormindo numa rede velha, armada por cima de um sofá velho, pois tua família não podia comprar uma cama e teu casebre era muito pequeno. 

Se tu não viveu isso, sabes muito bem que muitos dos teus familiares viveram,teus avós e tios. Agora tu moras num apartamento do Minha Casa Minha vida, tem TV tela plana, geladeira, fogão de indução, camas beliche, bicicleta, moto e um carrinho de terceira geração e achas que tudo foi meritocracia e vontadecde Deus.

Sempre vais à igreja ao domingo e o teu pastor diz que o bolsa família da tua mulher é uma esmola, que o gás do governo é compra de voto, mas no meio do culto ele quer o dízimo de 60 reais dele e 160 do teu salário mínimo. Ao final, ainda te convence de que Lula é o ladrão e o miliciano é um homem ungido por Deus para livrar o Brasil do comunismo.

Homem, me compra um burro, me compra um feixe de capim e aceita que o resto do país te chame de Nordestino morto de fome, te chame de imbecil, idiota e otário que não sabe votar. Vota bessa desgraça, te fode, mas depois não diga que te avisei.

*Por Belarmino Mariano, um fodido igual a todos nós, mas nunca irei baixar a cabeça para inimigos e traidores do meu pai. Estou vendo tudo e sinceramente, não consigo ficar calado, nem me fazer de mudo... (Imagem das redes sociais).

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