quinta-feira, 14 de maio de 2026

Guarabira e 7º Festival Internacional de Arte Naif, FIAN 2026!

Por Belarmino Mariano*

De acordo com o secretário de Cultura de Guarabira, Klemylson França e o Ateliê Adriano Dias,  a cidade se prepara para realizar o 7º Festival Internacional de Arte Naif, FIAN 2026! Será a partir do dia 28 de maio, no Casarão da Cultura, na Praça João Pessoa, palco de cultura, música, gastronomia e muita valorização da arte popular. Toda a população e visitantes estão convidados para prestigiar esse grande encontro cultural! (Veja Programação).

"Entre a Arte Naif e a Natureza Morta"

Esse ano, os artistas naif foram desafiados pelos organizadores do FIAN 2026, para compor uma exposição com foco na crise ambiental, emergência climática e aquecimento global. Então reuni alguns autores e argumentos para contribuir teoricamente com esse momento tão importante para Guarabira e para o mundo, observado através da arte naif.

Nem tudo é sobre a natureza inocente e pura, em seus tons hiper coloridos, cores neutras, terracota e pastéis nos milhões de quilômetros de um deserto que escorre sua areia escaldante em forma de ampulheta. A natureza em tela, expõe paisagens deslumbrantes, mas, com afirma o biólogo brasileiro Fernando Fernandez (2011), também é um "poema imperfeito", diante das profundezas, abismos e forças incontroláveis de erupções vulcânicas, tempestades e vendavais descontrolados.

Às vezes é sobre a natureza in arte naif, num padrão natural de cores que imitam a inocência da natureza e sua explosão de vida, em jatos de incertezas e imperfeições que servem como puros desenhos em arranjos e relações humanas. A arte da simplicidade, dos traços imperfeitos e das cores vivas e cintilantes. Precisa refletir sobre o mundo em catarse e caos humano. Na arte naif, o filho do jardineiro amava as flores, mas não sabia cuidar de jardins. Apenas amava como um amador que amava a dor de não saber que amar não bastava para ser amado. O amor já não cabia mais nas rosas pois estavam todas mortas. O mundo das flores sucumbia diante dos seus olhos e ele não sabia o que fazer.

O amor morre das piores maneiras, mas quando é um amor de jardineiro, o senhor das flores deve ter morrido também. No jardim jazia um canteiro em destroços, que teimava em florir, mesmo em escombros, floria para dizer que as flores insistiam em renascer. Como diz o poeta Juraildes Cruz "vou pro campo acampar no mato, no mato tem pato, gato, carrapato, canto de cachoeira (...) O céu estrelado hoje é minha casa, fica mais bonita quando tem luar (...) Quero acordar com os passarinhos, cantar uma canção como o sabiá (...)".

O cientista , o jardineiro, o poeta e o pintor em busca da arte de expressar os arranjos naturais, a natureza e a sua força descomunal. Mas quando é sobre a natureza morta? Sobre a natureza em cheque e em xeque? Para os que só pensam em dinheiro e em lucro, a natureza é apenas mercadoria, não importa se petróleo, gás ou outros minérios raros. Eles só pensam nas margens de lucros. Se vai destruir as margens dos rios, se vai assorear seus leitos, ou contaminar suas águas, pouco importa. Escavar, prender ou barrar. Sangrar, esfolar e queimar até o último hectare de vida. Extrair, poluir e contaminar são máximas para alterar o ritmo e a pulsação dos ecossistemas. 

Como afirma o compositor brasileiro Chico César (2023), fazendo uma crítica contundente aos "Reis do Agronegócio" e o uso de agrotóxicos: "Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio: “Ó produtores de alimento com veneno. Vocês que aumentam todo ano sua posse e que poluem cada palmo de terreno, e que possuem cada qual um latifúndio, e que destratam e destroem o ambiente. De cada mente de vocês olhei no fundo e vi o quanto cada um, no fundo, mente(...)". A contaminação por agrotóxicos, destruição do solo, dos lençóis freáticos, chuvas ácidas e doenças em larga escala. Esse modelo mercantil da natureza, destrói habitats, incendia abrigos de povos das florestas e declara guerra à fauna, à flora e aos próprios herdeiros do reino dos seres vivos. 

Esse quadro de destruição, quando ocorre em um padrão gigantesco, começamos a sentir o que o pensador anarquista russo Murray Bookchin, citado por Roberto Freire, afirma como: "Uma viragem ecológica", ou crise ambiental e que, em algumas regiões, se torna irreversível e é emergente que se faça algo agora. Freire (1992), completa dizendo que estamos diante de uma farsa ecológica, pois governantes parecem se preocupar com o meio ambiente, mas continuam permitindo a "destruição a todo vapor". "Os desequilíbrios causados ao mundo natural, são fruto das desigualdades do mundo social" (Bookchin, apud Freire, 1992). Quando a natureza começa a não responder às suas próprias leis naturais, quando os padrões, ritmos e pulsações estão fora do compasso, começamos a sentir o peso das nossas mãos em todos esses desequilíbrios, somos os responsáveis diretos ou indiretos, passivos ou ativos.

Na obra "Por uma outra globalização", Milton Santos (2001), destacou que existe uma "globalização perversa", e afirmou que: "quem se globaliza são as pessoas, e não apenas os mercados ou capitais". Ele argumentou que, embora a técnica e a economia globalize e ordene espaços de forma excludente, "a verdadeira globalização deveria ser a conexão solidária entre os indivíduos e suas vivências locais". Se "quem se globaliza mesmo são as pessoas", destacando a relação humana acima da produção técnica, daí a "Fábula", pois a ideia de que a globalização é uma "aldeia global" de oportunidades iguais, na verdade, é uma "fábula" que beneficia poucos, enquanto cria perversidades como exclusão e pobreza, tanto local, quanto global.

Em suma, a globalização atual é uma imposição técnica e financeira ("perversidade"), mas o potencial humano está em construir uma globalização solidária e mais humana. Enquanto isso, o mercado e a financeirização controlam tudo, tecnificam o mundo, altera tudo e coloca em risco o clima da terra, apenas para garantir lucros astronômicos e em curto espaço de tempo. Como diz o poeta Petrúcio Amorim: "Boi com sede, bebe lama, barriga seca não dá sono... eu não sou dono do mundo, mas tenho culpa porque sou filho do dono"... A natureza na poeira se mistura, morre a criatura e o poeta sente a dor... O desespero no olhar de uma criança, humanidade fecha os olhos pra não ver..."

Esse mundo em que estamos vivendo, ainda segue padrões naturais, ainda se mantém firme e forte. Resta saber, até quando? Daí a importância da consciência ambiental para além do bom senso, pois como afirma o compositor brasileiro Guilherme Arantes: "vamos precisar de todo mundo pra varrer do mundo a opressão".
......................................
Por Belarmino Mariano Neto. Da Série Geografia Cultural in Arte. Professor de Teoria da Geografia, Geopolítica e Estudos Integrados do Meio Ambiente. Departamento de Geografia da UEPB. Doutorado em Sociologia Ambiental e Mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPB/UFCG/UEPB).

Referências:

AMORIM, Petrucio. Filho do dono (Composição, 1990), letras.mus.br/petrucioamorim,
ARANTES, Guilherme. Terra Planeta Água (Composição, 1988). Festival MPB Shell da Rede Globo, 1988.
CÉSAR, Chico. Os Reis do agronegócio (Composição, 2023) letras.mus.br
CRUZ, Juraildes. Meninos (Composição, 1998), musixmacht.
FREIRE, Roberto. A Farsa Ecológica, Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1992.
FERNANDEZ, Fernando. O Poema imperfeito - crônicas de biologia, conservação da natureza e seus heróis. PR: editora UFPR, 2011.
MARIANO NETO, Belarmino. A Rosa e o Anarquista. Guarabira, 2026 - https://carcaradonordeste.blogspot.com/2026/05/a-rosa-e-o-anarquista.html?m=1
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. São Paulo: Record, 2001.

                     Programação

 Imagens da secretaria de Cultura de Guarabira.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Guarabira e 7º Festival Internacional de Arte Naif, FIAN 2026!

.  Por Belarmino Mariano* De acordo com o secretário de Cultura de Guarabira, Klemylson França e o Ateliê Adriano Dias,  a cidad...