Na aula de Geografia Política e Geopolítica, uma estudante me pediu para comentar sobre o voto da Ministra Carmem Lucia, pois ela era a única mulher naquela Primeira Turma do STF e com o poder de cravar o voto que poderia reescrever a história política do Brasil.
Confesso que fiquei até sem jeito e lembrei logo das acusações de políticos da extrema direita, que acusam os professores, principalmente da área de humanas e ciências sociais a usarem suas turmas com práticas de manipulação ideológica, dogmatismo e coisas piores.
Lembrei que essa estudante já é formada em História e agora se encontra no sétimo período de Geografia. Aproveitei e brinquei, dizendo que o assunto da aula era sobre os Conflitos no Oriente Médio. Mas ela insistiu e consultou a turma se concordavam em ouvir minha opinião. Todos foram unânimes com um sim barulhento.
Não tive escolha e estrategicamente disse que, primeiro queria saber o que ela tinha achado? Um sorriso no rosto e aquela primeira frase de efeito: "-quando Carmem Lucia respondeu ao Flávio Dino que ele precisava ser breve, pois 'as mulheres estavam a dois mil anos sem falar e nós precisamos falar'. Eu me levantei do sofá e dei um grito de alegria!"
"Que sensacional, que mulher corajosa, ter nas mãos o voto que definia a maioria para condenar militares por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa e abolição violenta do Estado". E ela continuou contando o que tinha achado.
"Eu achei que o voto da Ministra Carmem Lucia, me lembrou dois pensamentos de Che Guevara: 'Há que endurecer sem perder a ternura' e 'Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros'. Gostei muito quando ela escolheu o historiador Victor Hugo, no livro "História de um Crime" , sobre o golpe de Estado de Napoleão III" em um trecho de um diálogo em que um dos interlocutores propõe um golpe de Estado 'para o bem'. Em que o outro responde que 'o mal feito para o bem continua sendo mal.' Confesso que fiquei muito emocionada, pois também sou uma mulher."
Aí ela disse que tinha achado aquele voto como um poema, pois ela começou falando de dor e de sofrimento. "Fui lembrando da pandemia e do sofrimento das famílias com a morte dos parentes, enquanto o desgraçado fazia piadas e ria dizendo que 'não era coveiro'. Sempre achei que seu primeiro julgamento deveria ter sido por genocídio na pandemia".
Então eu disse que o voto de Carmem Lucia tinha sido em verso & prosa. A turma riu e ela disse: "Lembrei da ridicularização que ele fazia com mulheres e com jornalistas. Era tudo muito difícil e quando ele falou que 'tinha quatro filhos e na quinta, tinha dado uma fraquejada e veio uma menina'. Aí como eu tinha nojo daquele homem. Mas agora estava de alma lavada, pois justamente o voto da Ministra Carmem Lucia, estava dando a maioria para ele e seus comparsas estarem sendo condenados.
"A outra coisa que pude perceber, a Ministra deu um tapa no rosto do Ministro Fux, só que foi com luvas de pelúcia. Primeiro, foi um voto, em que ela ouviu os outros ministros, enquanto Fux, como um ditador, não permitiu ninguém falar. Aí Carmem Lucia disse que gostava de prosa, enquanto Flávio Dino e suas entradas e saídas maravilhosas colaboraram com ela. Depois o Ministro Xandão, que demonstrou com uma imagem, toda a trama golpista, violenta e covarde, enterrando de vez toda aquela falação do Fux".
Brincando lhe disse que como professor de Geografia Política, acompanhava a relatoria e o voto da estudante. Rindo perguntei à turma se alguém votaria contra, então a turma puxou uma salva de palmas para a colega e voltamos para a continuidade da aula, que trataria sobre a interferência geopolítica do imperialismo dos Estados Unidos no Oriente Médio, depois do 11 de setembro de 2001, quando ocorreu o "ataque terrorista em Nova York".
A moral dessa História foi a coincidência histórica entre a geopolítica dos EUA que sempre financiaram golpes militares contra diferentes povos, inclusive o Brasil e, pela primeira vez na História do Brasil, o STF estava julgando e condenando criminosos golpistas, em especial, militares de alta patente.
Não sou um professor dogmático e nem uso minhas aulas para manipulação ideológica, mas nunca fugirei da verdade e da realidade, pois sempre achei que ninguém faz a consciência de ninguém, pois a consciência é algo que cada um faz no dia da consciência de cada um.
*Por Belarmino Mariano. Imagem das redes sociais. Parabéns as mulheres brasileiras e do mundo por palavras e atos de esperança.
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